Viveu entre 1935 e 2004. Dramaturga, romancista e argumentista, Sagan ganhou notoriedade com obras de cariz romântico, cujas personagens tinham com frequência uma raiz burguesa, abastada e desencantada. O livro mais conhecido é curiosamente o primeiro – Bom Dia, Tristeza (1954) – escrito ainda na adolescência.
Françoise nasceu a 21 de Junho de 1935, na localidade de Cajarc, situada na região de Lot, no Sudoeste de França. Foi aí que passou a infância, rodeada por animais e natureza – uma paixão conservada durante toda a vida. Conhecida como «Kiki», era a filha mais nova de um casal de burgueses – o pai era director de uma empresa e a mãe era filha de proprietários de terras.
A família habitou em vários locais durante a II Guerra Mundial (1939-1945), primeiro na região de Dauphiné, depois em Vercors. A bisavó paterna era de origem russa, concretamente de São Petersburgo. A família possuía uma casa num dos bairros opulentos de Paris, tendo para lá regressado após o fim do conflito. Sagan foi expulsa da primeira escola que frequentou – um convento – devido a uma suposta «falta de fé convincente» e também da seguinte por «suspender um busto de Molière por um cordel». Terminou os estudos secundários apenas à segunda tentativa, numa escola privada, tendo depois sido admitida na Sorbonne, no Outono de 1952.
Revelou-se uma estudante indiferente e nunca se licenciou.
O pseudónimo «Sagan» foi inspirado no nome de uma personagem de Marcel Proust, integrante da obra «Em Busca do Tempo Perdido». O primeiro romance da autora, Bom Dia, Tristeza, foi publicado em 1954. Revelou-se um sucesso internacional. O enredo aborda a vida de uma hedonista rapariga de 17 anos, chamada Cécile e o tipo de relacionamento que esta mantém com o namorado e com o próprio pai, um viúvo mulherengo.
Françoise iniciou então uma carreira literária que se prolongou até 1998, tendo escrito dezenas de livros, muitos deles adaptados mais tarde ao cinema. Nunca se afastou das regras inerentes ao «romance psicológico», mesmo na fase em que estava na moda o nouveau roman. Há também quem veja nos diálogos entre as suas personagens um travo existencialista. Para além de romances, escreveu ainda peças de teatro, uma autobiografia, letras de canções e argumentos de cinema.
Nos anos 60, dedicou-se sobretudo à dramaturgia, mas as peças, embora elogiadas pela excelência dos diálogos, nunca atingiram sucesso considerável. À conta disso, voltou a concentrar-se na carreira de romancista.
Ainda em 1957, ao conduzir um Aston Martin desportivo a grande velocidade, viu-se envolvida num acidente grave, que a deixou em coma durante algum tempo.
Sagan casou duas vezes. Em Março de 1958, com o primeiro marido, Guy Schoeller, um editor da Hachette, 20 anos mais velho que ela. Divorciaram-se passados dois anos. Em 1962, foi a vez de Bob Westhoff, um jovem americano, diletante e pretenso ceramista. O filho de ambos, Denis Westhoff, nasceu em Junho desse ano, mas o casal separou-se logo em 1963. Esta iniciou então um longo relacionamento com a estilista de moda Peggy Roche, mantendo à parte um amante masculino chamado Bernard Frank, um ensaísta casado, viciado em leitura e comida. Completou a sua «família» à la carte adicionando outro relacionamento prolongado, agora com a editora da versão francesa da revista Playboy, Annick Geille, após ser abordada por esta para uma colaboração.
Apreciava viajar pelos EUA, sendo muitas vezes encontrada na companhia de Truman Capote e Ava Gardner. Também gostava de pegar num Jaguar e deslocar-se até Monte Carlo, para alimentar o vício do jogo.
Já nos anos 90, foi condenada pela posse de cocaína.
A saúde da autora começou a deteriorar-se a partir dos anos 2000. Em 2002, foi incapaz de comparecer numa sessão de julgamento que a condenou por fraude fiscal, num caso que também envolveu o antigo presidente François Mitterrand, tendo-lhe sido aplicada uma pena suspensa.
Acabou por morrer devido a um embolismo pulmonar, em Setembro de 2004, contava então 69 anos. Foi enterrada, a seu pedido, muito próximo do local de nascimento.
Em sua homenagem, afirmou o então presidente Jacques Chirac:
Com a sua morte, a França perde uma das escritoras mais sensíveis e brilhantes – uma figura de proa da nossa vida literária.
Françoise, contudo, preferiu escrever o seu próprio obituário:
Ganhou notoriedade, em 1954, com um pequeno romance – Bom Dia, Tristeza – e com isso provocou na época um escândalo mundial. A sua morte, no final de uma vida e obra que tiveram tanto de agradável como de fracasso, revelou-se um escândalo apenas para ela própria.
Em 2010, o filho criou o prémio literário «Prix Françoise Sagan».
Romance publicado em 1954, que obteve sucesso imediato. A inspiração para o título reside num poema de Paul Éluard, «À peine défigurée», que começa com as frases «Adieu tristesse/Bonjour tristesse…».
Enredo
Cécile, uma adolescente de 17 anos, passa o Verão numa villa situada na Riviera Francesa, na companhia do pai, Raymond, e da mais recente amante deste, Elsa. Esta última é jovem, superficial e popular, criando uma boa relação com Cécile. Raymond é um homem atraente, vivido e amoral, que justifica a vida boémia com citações de Oscar Wilde: «O pecado é a única nota de cor viva que subsiste no mundo moderno». Cécile confessa que «podia fazer dessa ideia um estilo de vida» e aceita sem mais polémica aquele modo de existir enquanto símbolo ideal das classes privilegiadas. Uma das grandes vantagens, na sua opinião, é que o pai, nada interessado em coisas académicas, pouco se importa com as notas dela. Outra, é que lhe dá carta-branca para ela fazer o que bem entende, convencido que a filha se integrará bem nas festas hedonistas que ele gosta de organizar. Na propriedade vizinha, mora um rapaz de 20 anos, chamado Cyril, com quem Cécile se inicia sexualmente.
Tal dinâmica é alterada pela chegada de Anne, que Raymond mal se lembra de ter convidado. Esta, uma amiga da falecida mãe, revela-se uma mulher focada no trabalho, inteligente, sensata e culta, na faixa etária do pai. Anne considera-se uma espécie de madrinha de Cécile. Todas as mulheres da casa disputam a atenção de Raymond, de alguma forma, mas Anne, distante e enigmática, depressa se amantiza com ele, não perdendo tempo a anunciar um noivado. Elsa sai de casa e Anne procura assumir a educação de Cécile. Recomenda-lhe que abandone Cyril e se concentre nos estudos.
A jovem entra em pânico com esta evidente ameaça ao seu estilo de vida mimado, bem como ao estatuto de privilégio junto do pai, uma vez que Anne se transforma no exclusivo foco de interesse deste. Concebe um esquema para boicotar os planos de casamento, embora lide com sentimentos ambíguos em relação a tudo.
De modo a provocar o ciúme de Raymond, Cécile manobra as coisas para que este veja Elsa e Cyril juntos, numa aparente dinâmica de casal. O pai, sem surpresa, não tolera a suposta união entre a antiga amante e o jovem rapaz, decidindo impulsivamente tentar reconquistá-la. Cécile não previu, no entanto, a reacção emocional de Anne. Ao descobrir Raymond e Elsa juntos, no bosque, no preciso momento em que ele sacode agulhas de pinheiro da roupa, esta arranca no carro, lavada em lágrimas e mergulha de um penhasco, consumando aparente suicídio.
Pai e filha regressam ao estilo de vida oco e anémico que alimentavam antes da chegada de Anne, meditando sobre o real significado de tudo. Cécile alberga na consciência a noção de que as suas acções provocaram uma tragédia e relembra, saudosa, os bons momentos passados com Anne.
Personagens
– Cécile – Protagonista do enredo, com apenas 17 anos. Rica e superficial.
– Raymond – Pai de Cécile. Homem de meia-idade, boémio e mulherengo.
– Elsa – A mais recente amante de Raymond, na parte inicial da história.
– Anne – Amiga da falecida mãe de Cécile, que amparou a jovem quando esta desistiu do colégio interno, de raiz católica.
– Cyril – Um jovem que vive na propriedade vizinha à de Raymond.
A obra foi, na altura, considerada:
Um pequeno enredo invulgar, concebido por uma jovem de apenas 19 anos. Um belo exemplo de talento precoce.
Por outro lado:
A obra atingiu considerável reputação, à conta do tema abordado e da idade precoce da autora, mas trata-se na verdade de um livrinho banal e deprimente.









