William Burroughs

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Viveu entre 1914 e 1997. Escritor e artista, Burroughs foi uma figura cimeira da Geração Beat e um importante autor pós-modernista, que influenciou de forma indelével a Literatura e a cultura popular. Escreveu 18 romances e novelas, seis colectâneas de contos e quatro de ensaios. Publicaram-se ainda cinco livros que reuniram a sua correspondência e entrevistas. Colaborou também em outros projectos com variados artistas e músicos, tendo para além disso marcado presença em muitos filmes. Apresentou-se durante um curto período com o nome William Lee.

Burroughs teve ainda tempo para pintar e exibir milhares de quadros e outros trabalhos artísticos.

Nasceu no seio de uma família abastada, em St. Louis, Missouri, neto de um inventor e fundador das Indústrias Burroughs, William Seward Burroughs I.

Burroughs começou a produzir ensaios e diários logo no início da adolescência, mas só tornou a sua escrita pública depois dos trinta anos. Saiu de casa em 1932 rumo à Universidade de Harvard, onde se formou em Língua Inglesa, tendo feito ainda uma pós-graduação em Antropologia. Mais tarde, estudou Medicina em Viena. Já em 1942, alistou-se no Exército Americano para combater na Segunda Guerra, mas acabou reprovado, situação que o levou a uma vida errante (múltiplos trabalhos) e a desenvolver um problema com drogas, que o afectou para o resto da vida. Logo em 1943, quando vivia em Nova Iorque, acabou por se tornar amigo de Allen Ginsberg e Jack Kerouac, tendo sido a cumplicidade crescente deste trio que levou ao surgimento da Geração Beat, mais tarde símbolo da Contracultura dos anos 60.

Grande parte da obra do autor é parcialmente autobiográfica, abordando sobretudo a sua relação com a heroína e as suas deambulações pela Cidade do México, Londres, Paris e Tânger (Marrocos), passando ainda por diferentes locais da América do Sul. Nos seus trabalhos encontramos uma constante preocupação com temas místicos, ocultistas e relacionados com a magia de uma forma geral – uma obsessão para Burroughs, quer na ficção, quer na vida real.

William matou a sua segunda mulher, Joan Vollmer, em 1951, na Cidade do México. O autor começou por alegar que ocorrera um acidente durante uma alcoolizada tentativa de fazer uma proeza a la William Tell, mas acabou por apresentar uma versão oficial diferente às autoridades: estava a mostrar a arma a uns amigos quando esta disparou de repente, atingindo a mulher. Ao regressar aos EUA, foi condenado por homicídio por negligência e a dois anos de pena suspensa.

O autor obteve desde logo sucesso com o seu primeiro romance confessional, «Junkie» (1953), mas a sua obra mais conhecida é provavelmente o terceiro romance – Festim Nu (1959), um trabalho envolto em polémica que chegou mesmo a ser objecto de um processo jurídico, cuja conclusão decretou que o texto violava as leis da moral e da decência nos EUA.

Em 1983, Burroughs foi eleito membro da Academia Americana de Artes e Letras, recebendo novas honrarias em 1984, em França. Jack Kerouac apelidou-o «o maior dos escritores satíricos desde Jonathan Swift», uma reputação construída durante «uma vida de subversão» aos sistemas morais, políticos e económicos fundadores da sociedade moderna americana, com o auxílio de uma linguagem quase sempre sardónica e cheia de humor negro. Outros consideram-no «o escritor mais importante do Pós-Segunda Guerra» ou «o único escritor americano que estava – quem sabe – possuído pela genialidade».

O autor produziu inúmeros trabalhos artísticos ao longo da vida, mas só os exibiu a partir de 1987, depois da morte do amigo e colaborador Brion Gysin. Na década seguinte – a derradeira da sua vida – organizou diversas exposições em museus e galerias de diferentes países.

Burroughs teve um filho, William S. Burroughs Jr. (1947-1981), com a segunda mulher Joan Vollmer. O autor morreu na sua casa em Lawrence, Kansas, depois de sofrer um ataque cardíaco, em 1997.

 

Burroughs nasceu em 1914, o segundo filho de Mortimer Perry Burroughs e Laura Hammon Lee, família de antepassados ingleses e de grande reputação em St. Louis, Missouri. A mãe de William, por exemplo, era filha de um ministro e a família desse lado alegava descender do famoso general Robert E. Lee. Um tio materno, Ivy Lee, foi pioneiro na área da publicidade, tendo mais tarde trabalhado para a família Rockefeller. O pai geria uma loja de antiguidades, primeiro nessa cidade e depois em Palm Beach, Florida, para onde se mudaram.

O interesse do autor pelos temas do oculto e da magia surgiram logo na infância, tendo permanecido ao longo da vida e influenciado com frequência o seu trabalho. Burroughs contará, mais tarde, um episódio no qual avistou um veado verde no bosque, que ele considerou ser um animal espiritual, bem como a aparição regular de fantasmagóricas figurinhas cinzentas, que brincavam no seu quarto.

Em criança, frequentou a John Burroughs School, onde desde logo apresentou o seu primeiro ensaio, «Personal Magnetism» – que versava sobre telepatia e controlo da mente – publicado numa revista em 1929. Passou depois para a Los Alamos Ranch School, no Novo México, período que se revelou negativo. O local era uma espécie de colégio privado para as classes altas «onde os indolentes filhos dos abastados se transformavam em homens». Burroughs alimentava um diário, onde confessa uma atracção erótica por outro rapaz. Mais tarde destruiu tais registos, envergonhado com o conteúdo. Manteve a sua orientação sexual escondida da família até estar bem entrado na idade adulta, à conta do contexto social em que crescera e de onde escapara – ou seja, «um lar onde as manifestações públicas de afecto eram consideradas embaraçosas». Acabou por se assumir e ficar conhecido como escritor homossexual depois da publicação de Festim Nu, em 1959. Há quem diga que o autor terá sido expulso de Los Alamos depois de consumir substâncias proibidas com um colega, em Santa Fé, mas este afirma ter saído da instituição voluntariamente: «Durante as férias da Páscoa do meu segundo ano, convenci a minha família a deixar-me ficar em St. Louis».

Burroughs terminou o ensino secundário na Taylor School, no Missouri, tendo saído de casa em 1932 rumo a um curso de Artes na Universidade de Harvard. Durante os períodos estivais, trabalhava como repórter estagiário para um jornal local, função que não era do seu agrado, recusando-se mesmo a noticiar certos acontecimentos, como o afogamento de uma criança. Nessa fase, teve a sua primeira experiência sexual num bordel, com uma prostituta feminina que visitava com regularidade. Ainda no mesmo período, fazia por vezes viagens a Nova Iorque, tendo sido apresentado à comunidade gay local. Frequentou vários sítios, como bares de lésbicas, bares de música ao vivo e a comunidade homossexual de Greenwich Village, tudo na companhia de Richard Stern, um amigo abastado da cidade do Kansas. Costumavam fazer irresponsáveis viagens de carro entre Boston e Nova Iorque, com a condução de Stern a tornar-se certa vez tão perigosa que Burroughs, assustado, exigiu sair do veículo.

William acabou por ser formar em 1936. De acordo com os relatos:

Os pais, nessa altura, decidiram começar a enviar-lhe uma mensalidade de 200 dólares, uma quantia avultada naqueles tempos. Era mais do que suficiente para sustentá-lo, tendo de facto garantido a sua sobrevivência nos 25 anos seguintes. Foi um bilhete para a liberdade, permitindo-lhe viver onde queria e não se preocupar com a busca de emprego.

Concluído o curso de Harvard, terminou também a vida estudantil do autor, excepção feita à pós-graduação em Antropologia, em Columbia, ou breve abordagem à Medicina em Viena. Este viajou até à Europa e envolveu-se com a cultura LGBT austro-húngara da República de Weimar, seduzindo jovens rapazes nas saunas de Viena e lidando com um conjunto de exilados, homossexuais e fugitivos. É lá que conhece Ilse Klapper, uma mulher judia em fuga do regime nazi. Nunca se envolveram romanticamente, mas Burroughs casou-se com ela, na Croácia, contra a vontade dos pais, de modo a que esta obtivesse um visto para os EUA. Ilse conseguiu chegar a Nova Iorque e acabou por se divorciar de William, mas a amizade foi mantida por muitos anos. Ao regressar a casa, experimentou um vasto conjunto de empregos monótonos. Em 1939, a sua saúde mental começou a preocupar os pais, em especial depois de este fazer um golpe no dedo mindinho da mão esquerda apenas para impressionar um homem por quem se interessara. O episódio acaba por ilustrar um dos seus primeiros trabalhos de ficção, um conto chamado «The Finger».

William alistou-se no Exército Americano nos princípios de 1942, pouco depois do episódio de Pearl Harbor ter provocado a entrada dos EUA na Segunda Guerra. Contudo, ao ser considerado soldado comum e não um oficial, deixou-se abater. A mãe apercebeu-se da depressão do filho e moveu influências para lhe ser atribuída uma dispensa por invalidez – baseada na premissa de que este nunca deveria ter sido admitido nos quadros, tendo em conta a sua instabilidade mental. Depois de avaliado por um amigo da família, que também era neurologista num centro de psiquiatria, Burroughs esteve cinco meses num limbo, antes de ser formalmente dispensado. Durante essa fase, travou conhecimento com um soldado natural de Chicago, que também apresentara o pedido de dispensa e uma vez livre o autor decidiu mudar-se para essa cidade, onde divagou por inúmeros trabalhos, incluindo um como exterminador de pragas. Entretanto, quando dois dos seus amigos de St. Louis – Lucien Carr e David Kammerer – partiram para Nova Iorque, Burroughs foi atrás deles.

Em 1944, William começou a viver com Joan Vollmer Adams num apartamento que partilhavam com Jack Kerouac e Edie Parker, a primeira mulher deste. Vollmer Adams era casada na altura com um militar, com quem tinha tido uma filha, Julie Adams. Burroughs e Kerouac arranjam problemas com as autoridades ao não reportarem um assassinato a envolver Lucien Carr, que matara David Kammerer à conta dos obsessivos e indesejados avanços sexuais deste. O episódio acabou por motivar Burroughs e Kerouac a escreverem um romance em parceria, intitulado «E os Hipopótamos Cozeram nos seus Tanques», concluído em 1945. Não conseguiram na altura publicá-lo, objectivo que só foi cumprido em 2008, muito depois da morte de ambos.

É por esta altura que Burroughs começa a usar morfina, tornando-se dependente e acabando mesmo por traficar heroína em Greenwich Village para sustentar o vício. Vollmer transforma-se igualmente numa drogada, embora prefira Benzedrina, uma anfetamina de venda livre, na altura. À conta desse problema, a que se associava o tipo de pessoas com que esta agora se relacionava, o marido decide divorciar-se mal regressa da Guerra. Influenciado por Allen Ginsberg e talvez Kerouac, Burroughs deixa-se a partir daí envolver intelectual e emocionalmente por Vollmer e começa mesmo a viver com ela (e com a filha desta) no Verão de 1945. Na Primavera de 1946, este acaba preso por forjar uma receita de medicamentos. Vollmer consegue libertá-lo com a ajuda do seu psiquiatra, mas uma das condições dessa libertação passa pelo regresso do autor a St. Louis e ao cuidado dos pais, o que acontece. Passada essa fase, volta a partir rumo ao México, de modo a resolver o divórcio com Ilse Klapper. Entretanto, a dependência de Vollmer provoca-lhe uma demência temporária, que leva ao seu internamento. Em consequência disso, coloca em risco a custódia da filha. Alertado, Burroughs regressa de imediato a Nova Iorque para assegurar a sua saída do hospital e aproveita para pedi-la em casamento. Nunca o consumaram, legalmente, mas viveram algum tempo em união de facto. Efectuam curta visita a St. Louis e aos pais do autor, antes de se mudarem os três para o Texas. Vollmer depressa fica grávida. O filho de ambos, William S. Burroughs Jr., nasce em 1947. Passam curto período em Nova Orleães, no ano de 1948.

Novos problemas com a lei obrigam a família a mudar-se para o México. O autor planeia lá ficar durante cinco anos, o período necessário para que as acusações prescrevam. Aproveita para estudar Espanhol, dialecto maia e outras disciplinas obscuras.

Apesar das boas intenções, a vida de todos no México torna-se bastante infeliz. Deixaram de ter acesso a heroína, abusando então no consumo de anfetaminas. Isto leva a que William retome o seu abafado interesse por homens, fazendo com que Vollmer se sinta abandonada e desenvolva um problema de alcoolismo, bem como um progressivo desprezo pelo companheiro. Certa noite, durante uma festa com amigos recheada de álcool, um Burroughs extremamente ébrio retira da mochila um revólver e anuncia em voz alta para a mulher:

Vamos fazer o nosso truque a la William Tell.

Não há memória de que tal habilidade tivesse sido ensaiada antes. Vollmer, também ela alcoolizada e a lidar com uma ressaca de anfetaminas, terá concordado e colocado um copo em cima da cabeça. William falha o tiro, matando a mulher quase de imediato.

Pouco depois, Burroughs acaba por mudar a versão dos acontecimentos, alegando ter deixado cair a arma e provocado um disparo acidental. Passa mais 13 dias preso antes do irmão o vir socorrer, subornando as autoridades mexicanas para que estas o libertassem sob fiança. O caso redunda mais tarde numa sentença de homicídio por negligência. A filha de Vollmer, Julie Adams, foi viver com a avó e William S. Burroughs Jr. regressou a St. Louis, para junto dos avós paternos. Conseguiram-se arranjar duas testemunhas que confirmassem a segunda versão da história e subornaram-se os peritos de balística. O enorme atraso no julgamento levou Burroughs a principiar o que mais tarde se transformará no conto «Bicha». Entretanto, é o próprio advogado do autor quem se vê obrigado a fugir do México, também ele em problemas com a Lei. Essa gota de água faz com que William decida «colocar-se em fuga», de regresso aos EUA. Acaba mais tarde por ser condenado com uma pena suspensa de dois anos.

Apesar do autor já se dedicar à escrita antes deste episódio, a morte de Joan Vollmer transformou-o, a ele e à sua obra, para o resto da vida.

Burroughs classificou o sucedido como um marco na sua vida, que incendiou a sua escrita e revelou o risco deste ser possuído por uma entidade malévola denominada «Espírito Maligno»:

Sou forçado a concluir, boquiaberto, que nunca me teria tornado escritor se não fosse a morte de Joan, evento que motivou e orientou a minha escrita num grau que me parecia impensável. Vivo com o constante receio de ser possuído e com a contínua necessidade de escapar a essa possessão, ao Controlo. Portanto, a morte de Joan revelou-me a existência do invasor, do Espírito Maligno, manipulando-me na direcção de uma vida árdua, da qual só consigo evadir-me escrevendo.

O autor faz questão de clarificar o que pretende dizer com «possessão», reforçando o carácter literal da palavra: «O meu conceito de possessão está mais próximo da ideia medieval do que das explicações psicológicas modernas…refiro-me de facto a uma entidade demoníaca». Assim sendo, a sua escrita seria uma forma de «feitiçaria», cujas técnicas o protegeriam da dita possessão. Mais tarde, descreverá o dito «Espírito Maligno» enquanto «Mal adquirido. Mal demoníaco. O americano demoníaco», participando mesmo numa cerimónia shamã com o objectivo claro de ser exorcizado.

Existe no entanto quem questione a teoria segundo a qual a escrita do autor teria sido catalisada pela morte de Vollmer, preferindo salientar a relação traumática de William com um namorado, que surge no conto «Bicha» como Eugene Allerton.

Para além disso, antes da morte da mulher Burroughs tinha praticamente completado o seu primeiro romance, «Junkie», debaixo da grande influência de Allen Ginsberg, que tudo fez para que o livro fosse publicado, mesmo numa edição pouco cuidada em capa mole.

Em 1953, Burroughs estava sem rumo. À conta dos múltiplos problemas com a Lei, estava impedido de viver nas cidades que mais lhe agradavam. Passou algum tempo com os pais em Palm Beach e em Nova Iorque com Allen Ginsberg. Quando este recusou as suas propostas sexuais, William foi para Roma ter com outro amigo, Alan Ansen, numas férias mais uma vez financiadas pelos pais, que nunca recusaram apoio. Acabou por achar a cidade e o amigo bastante aborrecidos, arrancando para Tânger, em Marrocos. Alugou um quarto na casa de um conhecido e começou a trabalhar num conjunto de textos a que deu o título de «Interzone».

Tornou-se evidente a necessidade do autor passar algum tempo nesta cidade, tão compreensiva com os seus interesses: drogas e baixo custo de vida. Depressa se apercebeu que a cultura marroquina estava em sintonia com a sua personalidade e não levantava barreiras aos seus hábitos de vida. Acabou por fixar residência em 1954, situação que prolongou durante quatro anos. Nesse período inicia os textos que mais tarde redundarão em Festim Nu, procurando intercalar com a produção de artigos comerciais sobre a cidade. Enviou um primeiro manuscrito a Ginsberg, que fizera o papel de agente literário para «Junkie», mas nada é publicado antes de 1959, sensivelmente na mesma altura de «Interzone». O autor continua o trabalho sob a forte influência de uma variante da marijuana e um opióide chamado Eukodol. Ginsberg e Kerouac juntam-se a ele em 1957, ajudando-o a dactilografar, editar e organizar os textos, até atingirem o resultado final.

Ao contrário de «Junkie» e «Bicha», que obedeciam ao formato convencional, Festim Nu é a primeira experiência fora dos moldes. Depois da sua publicação, Burroughs descobriu as técnicas de corte de Brion Gysin, durante a estadia no «Hotel Beat» de Paris, em Outubro de 1959. É lá que encontra «uma porta de entrada» para as pinturas do outro: «Acho que só comecei a saber o que é a Pintura depois de ver as telas de Brion Gysin». Desenvolvem uma amizade duradoura, baseada sobretudo no interesse comum em arte e técnicas de corte. Quanto ao livro, apesar de não ser considerado ficção científica, contém nele previsões futuristas acerca da SIDA, lipoaspiração e pandemias de drogas.

Burroughs tinha-se mudado para o famoso hotel no Bairro Latino, quando ainda procurava um editor para o livro. Tânger atravessava agora uma fase de agitação política e o escritor tinha-se envolvido com gente duvidosa, conjuntura que tornava perigosa a sua estadia em Marrocos. Arrancou para Paris, ao encontro de Ginsberg e em busca de contactos com uma editora. Para trás, tentou deixar um processo-crime que acabou por persegui-lo até França. Paul Lund, um veterano criminoso inglês e conhecido sobretudo enquanto traficante de tabaco, fazia parte dos conhecidos do escritor em Tânger, tendo acabado preso por suspeita de tráfico de droga para França. No processo, menciona o nome de Burroughs, tendo depois surgido provas de tal ligação. No seguimento, as autoridades marroquinas enviaram a informação para as congéneres francesas e o problema adensou-se. Entretanto, o livro de Burroughs acaba mesmo por ser publicado e tal facto valeu-lhe uma pena suspensa, uma vez que em França, possuir uma «carreira literária» é visto como algo prestigiante.

O «Hotel Beat» era uma espécie de albergue, com lavabos comuns em cada andar e uma pequena cozinha em cada quarto. O autor ocupou grande parte do seu tempo em experiências ocultistas – observações ao espelho, transes e telepatia, tudo alimentado por drogas psicotrópicas. Mais tarde, Burroughs descreve mesmo algumas «visões» surgidas depois de passar horas consecutivas a observar-se ao espelho: mãos transformadas em tentáculos, corpo metamorfoseado noutra entidade, visões de locais longínquos, ou metamorfoses de outras pessoas. Daqui surge a inspiração para as famosas técnicas de corte.

O autor abandonou Paris a caminho de Londres, em 1960, em busca de uma consulta com um famoso médico inglês, Dr. Dent, conhecido por uma inovadora metodologia para o tratamento da dependência de heroína e alcoolismo. Embora polémico, o método usado convenceu Burroughs.

Apesar de ter mais tarde recaído, o escritor acabou por estabelecer-se em Londres durante seis anos, fazendo frequentes viagens aos EUA.

Sustentava-se através da publicação de artigos em pequenos jornais literários, aproveitando o crescimento da sua reputação entre as novas gerações de hippies e estudantes universitários. Partilha casa com um jovem diletante que traz com frequência mulheres para o apartamento, ignorando os protestos do autor. Apesar de toda esta agitação na vida pessoal, consegue ainda assim completar duas obras: «The Last Words of Dutch Schultz» (1969) e «The Wild Boys» (1971).

É na década de 60 que William se junta e depois sai da Igreja da Cientologia. Comentando a experiência, alega que as técnicas e filosofia associadas ao culto lhe foram úteis e que um estudo mais profundo de tal crença seria recompensado com grandes resultados. Contudo, desagradou-lhe a organização interna da instituição, uma vez que esta não aceitava pensamento crítico.

Em 1974, preocupado com o estado de saúde do amigo, Allen Ginsberg arranja-lhe uma posição como professor de escrita criativa numa Universidade de Nova Iorque. Burroughs consegue enfim livrar-se da dependência de heroína e muda-se para a cidade. Encontra um apartamento, que recebe a alcunha de «O Bunker», tendo lá ficado até 1981, quando a renda passou para o dobro. Contudo, o escritor adiciona «professor» à lista de profissões que rejeita, tendo aguentado apenas um semestre. Considera os alunos desinteressantes e desprovidos de talento criativo. Apesar de estar bastante carenciado de fundos, recusa outras ofertas no sector do ensino:

Ser professor ensinou-me uma lição: nunca mais repetir a experiência. Oferecemos toda a nossa energia e em troca nada recebemos.

A salvação chega através de um jovem livreiro de 21 anos, admirador da Geração Beat, de seu nome James Grauerholz. Este sugere-lhe a opção de fazer circuitos de leitura. Grauerholz tinha experiência prévia no agenciamento de bandas e passou a organizar os eventos do autor, plano que lhe serviu de sustento nas décadas seguintes. Para além disso, melhorou a sua imagem pública, o que por sua vez lhe valeu novos contratos de edição. O autor decide regressar em definitivo aos EUA, em 1976. Restabelece laços com a cena cultural nova-iorquina, associando-se a figuras como Andy Warhol, John Giorno, Lou Reed, Patti Smith, ou Susan Sontag.

Certa noite desse ano, o filho – Billy Burroughs – está a jantar com pai e Allen Ginsberg quando começa a vomitar sangue. O autor não o via há mais de um ano.

Apesar de Billy ter publicado com sucesso dois pequenos romances na década de 70, sendo visto pela crítica como um «escritor beat de segunda geração», o seu casamento com uma empregada de mesa adolescente tinha falhado e o filho de Burroughs era também ele um alcoólico, passando longos períodos afastado da família e amigos. Chegou-se ao diagnóstico de cirrose hepática, cujo único tratamento passava por um raro transplante. Billy sujeitou-se ao processo e conseguiu fazer parte dos 30% de pacientes que sobrevivem. O autor passou algum tempo desse ano e do seguinte com o filho, no Colorado, ajudando-o na fase do recobro, apesar do relacionamento entre ambos ser frio e distanciado. Contaram ainda com o apoio de Allen Ginsberg.

Ainda em Londres, Burroughs começara a trabalhar naquele que seria o primeiro volume de uma trilogia, de seu nome «Cidades da Noite Vermelha» (1981), seguindo-se «The Place of Dead Roads» (1983), e «The Western Lands» (1987). O sucesso foi apenas moderado.

Entretanto, em 1981, Billy Burroughs acaba por falecer na Florida. Afastara-se em definitivo do pai pouco tempo antes, alegando que este «envenenara» a sua vida e confessando ter sido molestado aos 14 anos por um dos amigos deste, quando fora visitar o progenitor a Tânger. Nem o transplante de fígado curara o alcoolismo de Billy, situação que lhe valeu complicações sérias nos anos posteriores. Desiste dos medicamentos necessários (anti-rejeição) e o seu corpo é encontrado perto de uma auto-estrada, por um desconhecido. Morre pouco depois. Burroughs fica a saber da notícia pelo seu amigo de sempre, Allen Ginsberg.

Desde 1979, o autor recaíra no consumo de heroína. A droga era de fácil acesso, a baixo preço, ou mesmo oferecida por admiradores que faziam frequentes visitas ao seu apartamento. Apesar das mencionadas tentativas de desintoxicação, a partir desta altura o problema tornou-se permanente, só terminado com a morte do autor, em 1997.

Em 1981, Burroughs mudou-se para o Kansas, onde passaria o resto dos dias. Confessa estar agradado com a mudança:

O que me agrada é a ausência de violência, comparativamente, mas sobretudo o custo de vida bastante baixo. Por outro lado posso passear no campo, pescar, caçar, entre outras coisas.

Em 1984, assina novo contrato de edição e com o dinheiro compra um pequeno bungalow. Acaba enfim por ser aceite na Academia Americana de Letras e no Instituto de Artes e Letras, depois de muitos esforços do seu amigo Allen Ginsberg. Alguns comentam que essa é a prova definitiva da capacidade de uma sociedade capitalista incorporar os seus maiores contestatários.

Por esta altura, o autor está transformado num ícone, «substituindo» a companhia dos velhos amigos por uma nova geração de artistas: Doctors of Madness, Ministry, Gus Van Sant, Sonic Youth, R.E.M, Nick Cave, Tom Waits, David Cronenberg.

De acordo com o vocalista da banda Ministry:

Uma vez estávamos todos na casa do Burroughs, em 1993. Ele decide injectar-se com heroína e puxa um cinto cheio de seringas. Uma coisa enorme e antiquada, talvez dos anos 50. Não faço a mínima ideia como é que um velhote de 80 anos encontra uma veia, mas ele sabia o que estava a fazer. Estamos todos por ali, pedrados, quando reparo numa pilha de cartas na mesinha. Uma delas tem o selo da Casa Branca. Digo qualquer coisa do género: «Isto é capaz de ter interesse». Ao que ele responde: «Não, o mais certo é ser porcaria». Acabo por abrir a carta e é nada menos do que um convite do Presidente Clinton para que Burroughs realize uma sessão de leitura de poesia. Exclamo: «Bolas, tens noção da importância disto?». Ao que ele replica: «O que foi? Afinal como se chama o Presidente, agora?». Fiquei chocado. O tipo nem sabia quem era o Presidente em exercício.

Em Junho de 1991, o escritor submeteu-se a uma complexa operação cardíaca.

William Burroughs morre a 02 de Agosto de 1997, não resistindo a um ataque de coração que o afectara na véspera. Tinha 83 anos.


Festim-NuRomance publicado em 1959. É composto por uma série de quadros, vagamente relacionados entre si. Burroughs declarou que os capítulos podem ser lidos em qualquer ordem. O leitor acompanha os relatos do toxicodependente William Lee, que assume diferentes identidades à medida que viaja pelos EUA, México, até chegar a Marrocos e por fim à região fictícia de «Interzone».

Tais quadros, que o autor apelida de «rotinas», são inspirados pelas diversas vivências do escritor nesses locais, em paralelo com a sua dependência das drogas (heroína, morfina e chegado a Tânger majoun [uma espécie de haxixe] e um opióde de origem alemã conhecido como Eukodol, muito presente na sua escrita).

Burroughs partilha na introdução ao livro que o título foi sugerido por Jack Kerouac:

O título tem um significado literal. Um festim nu, um momento cristalizado no tempo em que todos entendem o que está em jogo.

O livro apresenta uma narrativa não-linear, sem argumento concreto. Segue-se um resumo de alguns acontecimentos presentes no enredo, talvez os mais importantes.

 

A história apresenta-nos as aventuras de William Lee (também conhecido como Agente Lee), nada menos do que o alter-ego de Burroughs no romance. Começamos por encontrá-lo em território americano, em fuga da Polícia enquanto anseia pelo próximo «chuto». Seguem-se pequenos capítulos onde se descrevem diferentes personagens que este encontra pelo caminho e que por vezes o acompanham.

Acaba por chegar ao México, onde é encaminhado para o Dr. Benway, não se percebe bem por que motivo. Benway aparece e relata as suas proezas num local chamado Annexia. A narrativa salta logo em seguida para outro ponto conhecido como Freeland, uma espécie de limbo onde nos é apresentada uma fornada de novas personagens, como Clem, Carl e Joselito.

Voltamos a viajar no espaço e no tempo para um mercado. Aqui, vende-se um produto conhecido como Carne Negra, que é comparada ao «cavalo» – ou seja, heroína. A acção regressa ao hospital, onde se descobre que Benway não passa de um sádico manipulador.

Novo salto no espaço e tempo transporta-nos para a zona fictícia de Interzone. Hassan, uma das personagens principais, organizou uma enorme orgia. AJ infiltra-se na festa e provoca o caos, decapitando pessoas enquanto se faz passar por pirata. Hassan fica furioso e expulsa-o, apelidando-o de «sacana factualista», um insulto que assumirá outra dimensão quando se revelarem as diferentes facções políticas de Interzone. Tais incluem «Liquefaccionistas», «Enviadores», «Factualistas» e «Divisionistas» (que ocupam uma posição híbrida). Há um pequeno capítulo dedicado à Universidade de Interzone, onde se ridiculariza um professor e respectivos alunos. Segue-se outra orgia, agora organizada por AJ.

O enredo regressa então para a zona do mercado, onde ficamos a conhecer as linhas do governo totalitário de Annexia. Personagens como County Clerk, Benway, Dr. Berger, Clem e Jody são apresentadas através de grandes blocos de diálogo, onde se revelam as suas vivências.

Regressamos a Interzone e a outros episódios relacionados com AJ. Mergulhamos depois em enredos secundários.

A terminar, voltamos ao que parece ser a realidade existencial de Lee, que se vê apanhado por dois polícias, Hauser e O’Brien. Lee acaba por matá-los. Este desloca-se depois a uma cabine telefónica e liga para a Brigada de Narcóticos, pedindo para falar com O’Brien. Um tal de tenente Gonzales do outro lado da linha afirma que não há ninguém na força policial com esse nome. Lee requisita a presença de Hauser. Obtém a mesma resposta. Este desliga e recomeça a fuga.

A partir daqui, o enredo torna-se cada vez mais impressionista e desconjuntado, acabado por ser bruscamente interrompido.

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