Trainspotting



Prefácio

Na minha provinciana cidade natal, como em todas as pequenas cidades, a juventude estava segregada em grupos distintos. Digamos entre lobos e cordeiros para simplificar a metáfora.

Quanto aos primeiros, não se tratava de uma matilha uniforme. Alguns deles haveriam de se reconverter em cães domésticos, mais ano menos ano. Outros, nem tanto.

Em 1996, começou a desenhar-se no fumo dos bares uma estranha palavra, de significado desconhecido para quase todos: Trainspotting.

Não era eu – cordeiro solitário – que a pronunciava, mas chegou-me mais tarde o relato de quem à época a confundiu com a expressão «treino do Sporting».

«Já viste o ‘treino do Sporting’?».

Não tinha visto. Nem o treino nem aquele que se tornaria a breve trecho um dos filmes mais revolucionários da década, capaz de influenciar milhões de jovens em todo mundo, para o bem e para o mal.

Naquela pequena cidade – como em tantas outras – alguns lobos abandonaram o consumo de drogas duras à conta do enredo. Outros iniciaram.

Trainspotting foi catalogado enquanto filme que «romantizava» o uso e enquanto filme que «censurava» o uso. Ambas as teses estão erradas.

Aquilo que Irvine Welsh (o autor desse e de outros livros relacionados) e Danny Boyle (o realizador) pretendiam era somente fazer um retrato neutro e despretensioso dessa realidade, em especial da que ocorria nos subúrbios de Edimburgo e Glasgow, duas cidades da Escócia.

Tal narrativa só me chegou uns anos depois (talvez 2001) mas ainda a tempo de moldar a minha visão do mundo – tal como Clube de Combate o fizera pouco antes.

Mudou também – radicalmente – a vida dos me acompanharam nesse visionamento: um mergulhou numa depressão que o afastou para sempre do nosso radar, outro mudou-se pouco depois para Edimburgo – cidade onde o reencontrei, por mero acaso, 13 anos mais tarde.


O Filme


 

Choose Life. Choose a job. Choose a career. Choose a family. Choose a fucking big television, choose washing machines, cars, compact disc players and electrical tin openers. Choose good health, low cholesterol, and dental insurance. Choose fixed interest mortage repayments. Choose a starter home. Choose your friends. Choose leisurewear and matching luggage. Choose a three-piece suite on hire purchase in a range of fucking fabrics. Choose DIY and wondering who the fuck you are on a Sunday morning. Choose sitting on that couch watching mind-numbing, spirit-crushing game shows, stuffing fucking junk food into your mouth. Choose rotting away at the end of it all, pishing your last in a miserable home, nothing more than an embarrassment to the selfish, fucked up brats you spawned to replace yourself.

Choose your future.

Choose life.

 

Ou, se quiserem em português:

Escolhe a vida. Escolha um emprego. Escolhe uma carreira. Escolhe uma família. Escolhe a porra de um ecrã gigante, escolhe máquinas de lavar, automóveis, leitores de CD e abre-latas eléctricos. Escolhe saúde de ferro, colesterol baixo e seguro dentário. Escolhe uma taxa de juro fixa para o empréstimo à compra de casa. Escolhe uma primeira habitação. Escolhe os teus amigos. Escolhe roupa confortável e bagagens a condizer. Escolhe um fato de três peças com alta procura, em carradas de cores. Escolhe «faça você mesmo» e ponderar sobre quem és realmente nas manhãs de domingo. Escolhe o sofá enquanto olhas para concursos vazios e deprimentes, à medida que enfardas comida rápida. Escolhe apodrecer no final das contas, mijando os teus últimos dias num lar decadente, mero embaraço para os putos birrentos, egoístas e alucinados que deste à luz para te substituir.

Escolhe o teu futuro.

Escolhe a vida.

 

Tudo isto ao som de «Lust for Life» de Iggy Pop (referência essencial da narrativa), música que por sua vez ilustra uma corrida desenfreada – não sabemos ainda as razões.

Por outro lado, segundo Renton, um dos nossos protagonistas:

Razões? Não há razões. Quem precisa de razões quando há heroína?

Esperem. É isso mesmo. Voltemos atrás. Conheçam os nossos protagonistas:

 – Mark Renton (Rents) – desempregado, 26 anos, vive com os pais nos subúrbios de Edimburgo;

 – Simon Willliamson (Sick Boy) – mulherengo, traiçoeiro e «especialista» na filmografia de James Bond;

 – Daniel Murphy (Spud) – pacífico e fiel aos amigos, uma espécie de burlão simpático;

 – Francis Begbie (Franco) – um psicopata violento e perigoso, que censura os vícios alheios, apesar de ser alcoólico e fumador;

 – Tommy Mackenzie (Tommy) – Ex-jogador de futebol, atlético, ingénuo e honesto.

Esta trupe associa-se com frequência a Swanney, o traficante/fornecedor de longa data que com os anos ganhou a alcunha de «Madre Superiora», à conta da capacidade para se manter vivo e relativamente sóbrio apesar do consumo e ainda – nas horas mais desesperadas – a Mikey Forrester, outro traficante (menos confiável), retratado pelo próprio Irvine Welsh.

As apresentações são feitas durante um jogo de futebol no campo do bairro, cenário onde as características de cada um deles ficam bem explícitas na atitude demonstrada no terreno: Sick Boy rasteira à traição (e alega inocência), Begbie rasteira ostensivamente, Tommy é deixado ao abandono entre múltiplos adversários, Spud está na baliza, sem capacidade para deter os remates, embora simule empenho e Renton recebe uma bolada violenta na cabeça, que o obriga a repensar prioridades.

Isto passará despercebido num primeiro visionamento mas será muito útil em análises posteriores.

Entretanto, não se iludam. O desporto dos nossos companheiros é outro. Renton volta a explicar:

Escolhi não escolher a vida. Escolhi outra coisa.

Ele e os restantes (com excepção de Begbie, como vimos).

Reunidos em casa de Swanney, entregam-se a um mundo próprio, onde dor, sofrimento, desilusão, responsabilidades, rotinas, família, objectivos, angústia existencial, são conceitos ausentes (desde que sob o efeito das múltiplas substâncias).

Todos se esquecem do prazer que isto dá. Façam assim: recordem o melhor orgasmo das vossas vidas, multipliquem tal sensação por 1000 e mesmo assim não chegam lá perto. De contrário, não o faríamos.

Porém, todos os nirvanas cobram um preço. Nem mesmo a poesia intoxicada de Renton consegue arrancar o consumo de droga à elementar lei da causa-efeito. Mais cedo ou mais tarde, o preço a pagar é muito superior ao placebo recebido.

Se Mark não consegue arrancar o consumo às agruras da realidade, talvez consiga arrancar-se a si mesmo ao consumo. Decide-o de súbito e promete-o a Swanney. O problema é que já o prometeu no passado. Muitas vezes.

Mesmo assim, talvez a prática o leve à perfeição. Ou pelo menos a uma vida nova.

Eis a lista necessária:

 – Latas de Sopa;

 – Embalagens de gelado;

 – Pacotes de leite;

 – Garrafas de água;

 – Pornografia;

 – Valium;

 – Uma televisão;

 – Baldes para urina, fezes e vómitos;

 – Um quarto trancado por dentro (tábuas a pregar a porta).

Ah, é claro, uma última dose.

Para isso há que reabrir a porta, falar com Mikey Forrester (o traficante de recurso) e bom…já estão a ver onde tudo vai parar. Ou talvez não.

É que, notem, Mikey não é rapaz de confiança e gosta mais de dinheiro do que de manter a reputação entre os clientes, logo pelo preço de uma dose de heroína consegue arranjar, no máximo, um par de supositórios de ópio. Será eficaz?

Segundo Renton:

Mais valia enfiá-los no traseiro.

E é exactamente isso que ele faz, sem hesitação. Medidas desesperadas para tempos desesperados and all that jazz.

Talvez nem todos saibam que um dos efeitos secundários do consumo regular de heroína é a prisão de ventre. Mark introduziu ópio no sistema, mas este ainda não fez efeito. O efeito da última dose, pelo contrário, está a desvanecer-se, portanto até um toxicodependente dos subúrbios escoceses consegue completar o silogismo: está curada a prisão de ventre.

Ponto da situação:

Mark está na rua, demasiado longe do apartamento e demasiado perto de uma diarreia. Pelo caminho, existem casas de banho públicas, que ele idealiza imaculadas, tão perfeitas em higiene e opulência que fariam corar de vergonha os melhores príncipes árabes. Existe, contudo, uma diferença entre o que ele idealiza e o que se pode encontrar nas piores ruas de Edimburgo. Não estou seguro se a alternativa que lhe cabe em sorte é tão execrável como ele a observa, afinal estamos prisioneiros da mente de um ressacado, mas tenho a certeza que um príncipe árabe pedia o livro de reclamações. Ou cortava umas cabeças.

O importante, seja lá como for, é que os supositórios de ópio se recuperam (preços altos, preços altos) e Renton se considera «pronto».

A questão seguinte é: pronto para quê?

Bem, quem sabe para descobrir (ou confirmar) o verdadeiro carácter dos amigos que o rodeiam. Vejamos Simon, por exemplo.

Segundo consta, decidiu abandonar a droga exactamente na mesma altura de Mark, não por convicção, não por desejo, não por necessidade sanitária, mas apenas e só para provocar o amigo de infância, para «provar que conseguia fazê-lo sem esforço, mais depressa e melhor». Não é à toa que o rapaz é conhecido como Sick Boy.

Simon, aliás, é uma personagem cheia de teorias. E não só as relacionadas com os filmes de James Bond, embora muitas estejam de alguma forma associadas ao tema e mais que tudo, a Sean Connery.

É algo universal. Num momento temos, no seguinte perdemos. E quando perdemos, é para sempre. George Best, por exemplo. Teve. Perdeu. Ou David Bowie ou Lou Reed.

(…)

E quem mais?

Charlie Nicholas, (…), Malcom McLaren, Elvis Presley

Certo, certo, mas onde queres chegar?

Tudo o que estou a tentar explicar-te, Mark, é que «O Nome da Rosa» é apenas uma excepção na inevitável trajectória descendente.

Então e «Os Intocáveis»?

Por favor, vou fingir que esse filme nem existiu.

Apesar do Óscar da Academia?

Isso não vale nada. É um voto político.

Enfim. Em resumo, envelhecemos, a diversão acaba e não há nada a fazer…é isso?

Sim.

É essa a tua brilhante teoria?

Sim. Ilustrada na perfeição.

 No que diz respeito a perfeição, não sei se podemos confiar em Sick Boy, mas podemos e devemos recordar esta teoria quando reencontrarmos os nossos companheiros 20 anos mais tarde, em T2.

Perdido o usufruto da heroína, tentei levar enquanto cidadão cumpridor uma existência útil e recompensadora. – Informa Renton.

É talvez por isso que o diálogo entre ambos decorre num parque público, cenário ideal para ambos testarem a pontaria, de forma discreta, com o auxílio de uma espingarda de pressão de ar. A mira viaja entre adultos e crianças (volatilidade existencial) até se deter num pitbull branco. Trata-se da raça preferida dos skinheads – explica-nos o livro e não o filme – e é de facto um, o dono do animal. Mark, sem hesitar, atinge o canídeo, dando origem a um acidente feio entre homem e besta.

Outro elemento a ensaiar uma pausa no consumo é Daniel, mais conhecido por Spud. Uma das consequências passa pela obrigatoriedade de procurar um trabalho.

Bem, enfim, quem diz procurar, diz comparecer a uma entrevista do centro de emprego, de modo a justificar o pagamento do subsídio.

Reparem, «lidamos com um verdadeiro trapézio. Se não nos esforçamos na entrevista, os decisores vão alegar que não estamos de facto interessados e lá se vai o dinheiro. Por outro lado, se nos distraímos e tentamos a sério…arriscamo-nos a ficar com o emprego». É um dilema. E a trupe conhece apenas uma forma de enfrentar os dilemas.

Aqui tens um bocadinho de «speed» para te acalmar.

Obrigado, Mark, era mesmo isto que faltava.

É discutível se «Os Intocáveis» mereceram o Óscar, mas aquela entrevista de Spud está acima de qualquer suspeita.

Senhor Murphy, o que o atrai na indústria do turismo?

Numa palavra, prazer. Retiro prazer ao observar o lazer.

Falemos então de prazer. Existem variantes para todos os gostos, feitos e psicoses. Veja-se o caso de Francis: Álcool, tabaco, a ocasional noite com a namorada.

Mas não hesitem. No topo dessa pirâmide está a violência, em especial se for gratuita e provocar múltiplas vítimas.

Admitimos que Begbie está longe da classe de um Alex DeLarge em Laranja Mecânica, mas enfim, talvez seja o melhor psicopata disponível nos subúrbios de Edimburgo. É, decerto, o maior daquele bar.

Em resumo:

 – Begbie conta história elaborada e totalmente falsa sobre um jogo de bilhar na véspera (na companhia de Tommy);

 – Begbie acaba a caneca de cerveja, perante o silêncio complacente do grupo, fazendo-a depois voar pelos ares e abrindo com isso profundo golpe na cabeça de uma cliente – no andar inferior;

 – Begbie, perante os gritos, coloca a faca na mesa (afinal, não está à procura de problemas) e desce as escadas, interrompendo a comoção geral;

 – Begbie provoca os companheiros da vítima, até obter o deleite procurado: uma batalha campal.

Os restantes, em segurança no andar superior, observam. Nós também.



Entretanto, se queremos saber a verdade acerca do jogo de bilhar, é falar com Tommy. Tal como nos explica Renton, «podemos sempre saber a verdade ao falar com Tommy. Este nunca mente, nunca toma drogas e nunca prejudica ninguém».

Existe uma conhecida expressão para cidadãos como Tommy: alvo fácil.

A oportunidade surge quando Mark o visita no dia seguinte. Ocupado a relatar o episódio com Francis, por entre o levantamento de pesos, o ex-futebolista não se apercebe quando o amigo decide trocar o VHS de uma colectânea futebolística por um vídeo caseiro das intimidades entre Tommy e a namorada.

Emprestas-me este?

As razões, perguntam vocês? Já deveriam ter percebido, por esta altura. «Quem precisa de razões?».

Mark, depois de ver o filme íntimo na companhia de Simon, pode não precisar de razões, mas apercebe-se, subitamente, que precisa de outra coisa.

É provável que a encontre numa noite no «Volcano», uma discoteca nos arredores onde «os mais capazes não hesitam em segregar de forma ostensiva os falhados», ainda que tais carimbos sejam voláteis. Simon e Francis manobram as companhias femininas com aparente facilidade – as drogas recreativas ajudam – o mesmo não se podendo dizer de Tommy e Spud.

De que falam vocês?

De futebol. E vocês?

De compras.

No entanto, se queremos de facto saber a verdade, é falar com Tommy. Não é certo que Spud queira saber a verdade, nesta altura da noite, mas o outro oferece-a de qualquer modo.

Ela está fula comigo, só porque me esqueci do aniversário. Tentei explicar-lhe que estas coisas acontecem, é seguir em frente.

Certo.

Pois, só que a seguir…a seguir ficou a saber que eu tinha comprado bilhetes para o Iggy Pop no mesmo dia. «É escolheres, eu ou o Iggy Pop».

E que fizeste?

Bolas…os bilhetes estavam pagos.

Murphy tem a sua dose de problemas nesse departamento.

Diz que não quer uma relação que comece pelo sexo, porque depois é assim que passa a ser definida.

Onde ouviu ela uma tolice dessas?

Leu na «Cosmopolitan».

E há quanto tempo dura isso?

Seis semanas.

Seis semanas? Seis semanas e nada de sexo?

Estou a rebentar, só te digo.

Quanto a Gail e Liz…

Ando a morrer por uma voltinha, mas vê-lo sofrer ainda é mais divertido. Devias tentar com o Tommy.

O quê? E perder a única coisa boa que ele me dá?

 



Alheio a tudo isto, está Mark Renton. Pode mesmo dizer-se que a partir de certa altura, este está alheio a qualquer coisa que não seja uma certa presença feminina.

O alvo da sua devoção dirige-se para a saída, sendo no último instante interceptado por um pretendente, com dois copos na mão. Esvazia um, depois o outro e segue em frente, com desprezo olímpico. Fim da história. Ou será o princípio de uma história?

Olá, peço desculpa por vir atrás de ti, mas achei que lidaste com aquela situação de forma excelente.

Obrigado.

Como te chamas?

Diane.

E para onde vais, Diane?

Para casa.

Onde é isso?

É onde moro.

Boa.

Que se passa? Planeias vir comigo?

Não faço promessas.

Costumas dar-te bem com esse tipo de abordagem?

Eh…

Ou deixa-me adivinhar: nunca tentaste uma coisa destas antes. No fundo, tu nunca abordas raparigas, certo? Na verdade és do género quieto e sensível, mas se eu estiver disposta a dar-te uma oportunidade, poderei conhecer o teu melhor lado: atrevido, aventureiro, apaixonado, amoroso, leal, (táxi!), uma pitada de loucura, uma pitada de malícia, mas enfim, não é mesmo disso que as miúdas gostam?

O táxi detém-se e Diane entra nele, deixando a porta aberta.

Bom, desculpa, é melhor voltar lá para…

Que foi, rapaz? O gato comeu-te a língua?

Entras ou não entras, pá? – Reforça o taxista.

Muito bem. Prossigamos.

Prosseguir, é na verdade o que todos estão a fazer. Tommy, Spud e Mark.

 – O primeiro procura o VHS íntimo, para satisfazer um capricho de Liz: «Quero ver-nos enquanto fazemos». O problema é encontrá-lo. «Talvez o tenha devolvido ao clube, por engano». «Ao clube? Queres dizer ao clube de vídeo? Para que todos os tarados de Edimburgo tenham um orgasmo à minha custa?».;

 – O segundo é arrastado para o quarto de Gail: «Entendes? Espero que sejas um bom namorado. Gentil mas firme. Qualquer falha neste padrão obrigará ao regresso a uma rotina sem sexo. Ouviste?». É provável que não tenha ouvido. «Acorda, Spud. Sexo! Sexo ocasional!». Nada feito. «Enfim, deixa-me lá ver o que tenho perdido…pouca coisa»;

 – O terceiro é arrastado para o quarto de Diane. A noite corre-lhe melhor que aos outros dois – «Não me sentia assim desde o golo que marcámos à Holanda em 1978» – embora o prazer dure pouco. Completo o serviço, são oferecidas duas opções: dormir no sofá do corredor ou ir para casa.

Prossigamos, ainda. Prossigamos rumo à manhã seguinte.

 – Tommy e Liz aguardam à porta do clube de vídeo. As coisas não prometem futuro brilhante;

 – Spud acorda sozinho, o que já é mau sinal, mas acorda também sem qualquer memória da véspera, o que é pior. O verdadeiro problema está contudo reservado para o instante em que ergue os lençóis e identifica a origem do cheiro nauseabundo. Gail toma o pequeno-almoço com os pais.

Lamento, houve um pequeno acidente.

Não faz mal rapaz, de vez em quando faz bem um jovem soltar-se.

A este fazia-lhe melhor conter-se.

Eu lavo a roupa da cama, senhora Houston.

Que disparate, Daniel, a roupa é minha.

Pois, mas neste caso é melhor ser eu.

Dá-me a roupa, Daniel.

Enfim. Estão a ver o resultado. Bom, não. Não estão a ver o resultado, mas aconselho a que vejam. Bom, não, também não aconselho a que vejam. Por outro lado, quem já esteve na pior casa de banho da Escócia, irá considerar este episódio uma brincadeira de crianças. Ou não.

 – Mark também toma o pequeno-almoço, na companhia…dos companheiros de casa de Diane? «Vou ter que me lembrar dessa», zomba a mulher.

És amigo da Diane?

Bem, amigo de um amigo, no fundo.

Exacto.

Talvez a indigestão de Renton não seja tão grave como a de Spud, mas o choque é suficiente para que o estômago se aperte. Não é todos os dias que descobrimos ter dormido com uma menor.

Sabes o que fazem na prisão a tipos como eu?

Ninguém lhes vai dizer nada.

Podes ter a certeza.

Vais voltar a ver-me?

Claro que não.

Bem, nesse caso posso sempre contar isto a alguém…

Pois é «Rents». Diane vai ser o teu melhor pesadelo.

Não se pode dizer que as tentativas dos nossos companheiros para se integrarem na sociedade convencional tenham sido um sucesso. Nós sabemo-lo e eles sabem-no. O que eles vão fazer em relação a isso é o que fazem de melhor: regressar às drogas. O que nós vamos fazer é assistir a essa queda.

Antes, porém, um derradeiro passeio. Uma caminhada pela Escócia rural, belíssima ideia patrocinada pelo desespero de Tommy, abandonado com todas as letras por Liz.

Este, Mark, Spud e Sick Boy desembarcam no meio de nenhures – onde afinal, a vida deles se encontra – e relutantemente aceitam a proposta do primeiro: subir a montanha mais próxima.

Aceitam, é como quem diz. A conhecida incapacidade de assumir um objectivo até ao fim (aparte o consumo) leva-os a desistir à primeira oportunidade. Tommy caminha mais uns metros, sozinho (lembram-se do jogo de futebol inicial?).

Então? Venham!

Onde?

Ali. – Aponta a montanha a alguma distância.

Ouve Tommy, sabemos que estás chateado por causa da Liz, mas não vale a pena descarregares em cima de nós.

Isto é a vida na Natureza. É respirar ar puro. Não vos faz ter orgulho em ser escoceses?

Renton tem outra opinião.

É uma bosta ser escocês! Somos o fundo do poço. A ralé deste planeta! O lixo mais ignóbil, miserável, servil e patético que esta sociedade alguma vez pariu. Há quem odeie os ingleses por isso, não é o meu caso. Os ingleses limitam-se a ser palhaços. Nós, por outro lado, somos colonizados por palhaços. Nem sequer conseguimos arranjar uma cultura decente para nos colonizar. Somos governados por idiotas efeminados. É uma situação ridícula, Tommy e nem todo o ar puro à face da Terra vai mudar isso.

O ar puro não muda nada, mas um regresso em força ao consumo é capaz de ajudar. Ajudar a esquecer a realidade, entenda-se.

Afinal porque não? Que diferença entre o que eles fazem e o que acontece nas melhores casas de família, entupidas em calmantes, antidepressivos, sedativos, antibióticos, anti-inflamatórios, cafeina, álcool, tabaco, comida de plástico, sal, açúcar, televisão ou pornografia? O seu a seu dono. Cada um que escolha a sua droga preferida.

Notem, tal como fica bem explícito no enredo, isto não é sobre drogas. É sobre as causas. É sobre inadequação. É sobre dor.

Não é verdade, Tommy?

Quero experimentar, Mark.

(…)

Não estás sempre a dizer que é o topo, melhor que sexo?

(…)

Já sou adulto, assumo a responsabilidade das minhas escolhas.

(…)

Não te preocupes. Tenho dinheiro.

Bem, alguns argumentos são mais fortes que outros. A trupe prossegue na sua caminhada descendente, indiferente a tudo e todos. Tommy depressa aprende os truques necessários e qualquer dificuldade é resolvida pela navalha de Francis, desde que o autorizem a fazer uso dela. Enfim, uns pontapés se preferem.

Perdão, eu disse «indiferente a tudo e todos»?

Bom, talvez tenha exagerado. Talvez um acontecimento em particular, com um pequeno ser humano em particular, não os deixe indiferentes. Não os fará abandonar o consumo, mas talvez não os deixe indiferentes.

De súbito, não importa quando, o silêncio soturno é rasgado por gritos primitivos. Gritos sem género, sem origem, sem lógica, grito alegórico a clamar por uma resposta do Universo.

Com o lento passar dos minutos, o torpor generalizado identifica o desespero de Allison, a pretensa namorada de Simon. Dizemos pretensa porque na verdade ninguém sabe muito bem quem é o pai da sua bebé, Dawn (Madrugada).

Essa criança é vista a circular ocasionalmente pelo apartamento de Swanney, onde todos se reúnem aquando das jornadas de narcóticos. É vista até deixar de ser vista. Voltamos a encontrá-la agora, guiados pelo terror de Allison, no seu berço.

Tenham calma. Vai ficar tudo bem.

Mas não vai, Spud. Não vai ficar tudo bem. Na verdade, tudo vai ficar muito pior do que já está. A madrugada não vai voltar a raiar.

Como, quando, porquê, são perguntas que não interessam. O que interessa, o que interessa sempre, é adormecer a dor. E a dor adormece-se com mais droga.

De todos eles, há um que chora. Um para quem a dor é mais forte. Esse alguém é Simon.



Mark explica que, a partir daquele dia, algo morreu dentro de Sick Boy e nunca mais voltou. Acreditamos.

Para onde é o caminho? Exacto. Para baixo.

Lembram-se da corrida que introduz o filme? Trata-se desta corrida. Daquela que Mark, Simon e Spud são obrigados a fazer depois de um assalto. O único que a leva a bom porto é Sick Boy. Os outros dois são apanhados (Renton evita por milagre um atropelamento) e levados a tribunal.

Na sala de julgamento, destinos diferentes. Mark, ao inscrever-se num programa de reabilitação, consegue dessa forma evitar cumprir pena, ao contrário de Daniel, que é condenado a seis meses.

Onde estão os pais? Que responsabilidade têm? Talvez muita. Talvez nenhuma. Todos se reúnem num bar (durante o dia, em redor de uma mesa atulhada de canecas e cigarros) incluindo os pais de Mark e o nosso Begbie, moralista «antidrogas». Celebram a «sorte» de Mark, que uma vez mais «deixou» o consumo, a favor de três doses diárias de metadona. A euforia é interrompida pela chegada silenciosa da mãe de Spud.

Lamento, Sra. Murphy. Não é justo que o Spud tenha sido preso e eu não.

Francis, antes que a sombra daquela mãe dobre a esquina, considera necessário enterrar a lâmina.

O seu filho é um ladrão e um drogado. Se isso não é culpa sua, não sei de quem é.

Sentem o asco? O desespero? O constrangimento? O fundo daquele poço?

Mark sente-o, sem qualquer dúvida.

Sente-o de tal forma que já tomou as três doses de metadona ao início da manhã e está perante 24h de carência. Sente-o de tal forma, que tem de abandonar os outros no bar e fugir pelas traseiras. Sente-o de tal forma, que tem de visitar, «uma última vez», o velho amigo Swanney.

O que temos no menu de hoje, meu caro?

O seu prato favorito.

Excelente.

A sua mesa habitual, meu amigo.

Oh, muito agradecido. (Senta-se no chão).

O meu amigo importa-se de pagar a factura primeiro?

Se puder ser, coloque na minha conta.

Ah, lamento informar o caro amigo que o seu crédito foi atingido e ultrapassado há algum tempo.

Bom, nesse caso… (Estende-lhe uma nota).

Ah, dinheiro vivo! Muito agradecido, meu caro! Hoje em dia todo o cuidado é pouco! (Verifica se a nota é falsa num equipamento próprio). Está o meu caro interessado numa entradinha, talvez um pão de alho?

Não, obrigado. Prefiro passar desde já à injecção intravenosa de drogas duras, se faz favor.

Como quiser, meu caro, como quiser. (Estende-lhe uma seringa preparada, num guardanapo de papel).

Apesar da simpatia do serviço, não se pode dizer que tenha sido um dia perfeito. Daniel foi preso, as ruas estão geladas e desertas, o céu está tomado por um cinzento chumbo. Ouve-se uma ambulância ao longe, mas esta não vem em socorro de Mark. Swanney preferiu (obviamente) chamar um táxi, quando percebeu que Renton pode ter tido uma séria indigestão no seu restaurante. Os leigos chamam-lhe overdose.

Abandonado à porta das urgências, o trapézio permanece durante longo período. Por fim, a eficácia do tratamento administrado pelas enfermeiras resgata Mark da sua última viagem.

De certa forma, em certas viagens é conveniente evitar atalhos. Há que enfrentar o caminho mais longo.

Mark pode assim ter escapado ao inferno (os pais encerram-no no quarto, sob vigilância apertada e forçando uma cura radical), mas não escapará ao necessário purgatório.

A saber:

 – Diane (vigilante aos pés da cama, trauteando com voz doce uma canção romântica);

 – Sick Boy (cansei-me de o avisar, Sra Renton. Claro que não sou inocente, mas chega uma certa altura em que temos de dizer não. Basta «dizer não»);

 – Begbie (vais expulsar essa porcaria do teu sistema «Rents». Se quando eu voltar não o tiveres feito, arranco-te isso à pancada);

 – Tommy (já sou crescido, Mark. Assumo a responsabilidade. Podes crer que estou a assumir tudo. Podes crer);

 – Spud (sentado na porta, agrilhoado, meio homem meio criança);

 – Dawn (a gatinhar no tecto, lenta e penosamente, qual réptil. Lenta e penosamente, um demónio por exorcizar – cabeça rotativa – que tomba no colo dele).

E quando reencontramos a superfície do subconsciente, há que resistir a uma derradeira provação. Há que escutar uma derradeira sentença.

Acorda, filho. Tens de ir fazer uma coisa ao hospital.

Mark Renton é um sortudo. Escapou à prisão, escapou à morte (múltiplas vezes), escapou agora à doença – o teste de VIH acusa negativo.

Mark Renton é tão sortudo, reparem, que numa animada sessão de bingo com a família (de novo regada com canecas e beatas) é abençoado com o grande prémio. Linha!

Embora, convenhamos, a linha com que ele sonha seja outra. Há contudo que não pensar nessas linhas e manter-se na linha. O pior é o esforço necessário para não dar um tiro na cabeça – tal a depressão, a apatia, a angústia que vem acoplada a uma vida de sobriedade.

Talvez visitar Tommy o ajude. Costuma dizer-se que utilizamos o mal dos outros para nos sentirmos melhor connosco. Não que Mark seja esse género de pessoa. Mark é um bom tipo. «Uma pitada de loucura e uma pitada de malícia» como diz a Diane, mas um bom tipo, no fundo.

Ainda que os bons tipos, por vezes, possam fazer coisas más.

Recordemos, por exemplo, aquela maroteira de trocar as VHS de Tommy, roubando-lhe o vídeo íntimo com Liz (nunca devolvido). Uma brincadeira inocente, talvez, não se dera o caso de esta ter abandonado o outro à conta do assunto. E deste, deprimido, ter convencido (com alguma dificuldade, é certo, pelo menos até mostrar as notas) Renton a iniciá-lo na heroína. E claro, desse vício ter crescido, crescido, crescido, ultrapassando qualquer coisa que a restante trupe possa ter feito. Ultrapassando de tal forma, que o teste de VIH de Tommy acusou positivo.

Mas enfim. Renton não fez por mal. Renton é um bom tipo. E é, sobretudo, um tipo com sorte. Nem todos podem ter sorte, não é Tommy?

Há que dizer, por outro lado, que muita da sorte de Mark está personificada em Diane. Esta visita-o no seu novo refúgio, em busca de prazeres apenas em parte proibidos.

Estás limpo?

Estou.

De certeza?

Sim, de certeza, ora essa.

Calma. Só perguntei. Estás a fumar erva?

Não.

Estás sim.

És muito nova.

Nova para quê?

Sim senhor, Mark Renton é um tipo com sorte. Afinal, quantas ninfas de 16 anos exibem este género de maturidade?

Não vais para novo, Mark. O mundo está a mudar. A música está a mudar. Até as drogas estão a mudar. Não podes ficar o dia todo aqui estendido, a sonhar com heroína e com o Ziggy Pop.

Iggy Pop.

Ou isso. O fulano está morto, de qualquer modo.

O Iggy Pop não está morto. Ainda o ano passado fez uma digressão. O Tommy até foi vê-lo. (Lembram-se?)

Bom, em resumo: tens de encontrar algo novo. Dar um sentido à vida.

E assim foi.

Para trás fica o caos deprimente de Edimburgo, adiante fica o caos aliciante de Londres. Pela primeira vez na vida, Renton abandona o «trainspotting», como quem diz ver os comboios a passar e decide apanhar um. Um que o leve para melhor destino.

Adapta-se com espantosa facilidade. Em pouco tempo arranja casa (minúscula e degradada mas aceitável) e emprego – precisamente como agente imobiliário. Manobra a sua veterana capacidade de improviso ao ponto de apreciar a nova existência – apenas em parte «dentro do sistema», uma vez que se serve dele em vez de ser consumido pelo mesmo.

Os laços com o passado recente são atados pela mão de Diane, que lhe escreve com regularidade – alimentando uma espécie de relação à distância.

Segundo esta, Tommy nunca mais foi visto, Spud (entretanto libertado) parece que manda cumprimentos e Sick Boy abraçou agora as dignificantes actividades de proxeneta e pequeno traficante. Como? O que se passa com Begbie, perguntam?

Bem…

Alguém bate à porta. Mark relê a frase: «Francis Begbie é procurado pela Polícia depois de um assalto à mão armada…».

Logo agora que tudo parecia encaminhado.

Confirma-se. Renton pode ter abandonado Edimburgo, mas a pior parte de Edimburgo não abandonou Renton. Onde se lê «pior parte», leia-se Francis Begbie.

Este não tinha para onde ir, logo lembrou-se de Londres (de todos os sítios) e não tendo onde ficar em Londres, lembrou-se do minúsculo apartamento de Mark (com certeza). Por esta altura já conhecemos o nosso caro Francis, portanto sabemos que ele não é propriamente um modelo de gratidão e delicadeza.

Ou seja:

 – A cama é dele e Mark é autorizado a dormir nela;

 – As refeições são por conta de Mark;

 – As apostas que ele decide fazer nas corridas de cavalos são por conta de Mark;

 – O tabaco é por conta de Mark.

Porquê? Porque o mundo deve alguma coisa a Begbie. Alguma coisa que ele vai exigir à lei da navalha.

Porque não vais tu?

Sou um criminoso procurado. Não posso ser visto nas ruas.

Mesmo que essas ruas sejam as de Londres, onde ninguém o conhece e o crime tenha sido cometido em Edimburgo. Querem discutir com ele? Bem me parecia.

Contudo, se uma dessas apostas correr bem, Begbie considera que as autoridades não irão, logo por azar, procurá-lo na discoteca onde ele se encontra a festejar, na companhia de Renton.

A Diane tinha razão. O Mundo está a mudar, a música e as drogas estão a mudar. Até as pessoas estão a mudar. Daqui a 1000 anos nem sequer haverão homens e mulheres, só pessoas. Por mim tudo bem. Só é pena que ninguém tenha dito ao Begbie.

Este descobre-o da pior maneira, ou seja, com as mãos na massa. Ou…enfim.

Ouve, não sou a porcaria de um maricas, acabou a conversa!

Oh pá, vamos lá ver, até podia ter sido óptimo.

(Begbie rosna de raiva, atira um cigarro aceso contra Mark e agarra-o pelo pescoço).

Ouve-me bem, meu pedaço de bosta drogada. Isto não é assunto para fazer piadas. Se voltas a falar no caso, abro-te ao meio.

(Coloca-lhe a faca entre as pernas).

Mensagem recebida. De qualquer modo, Mark terá outras coisas com que se preocupar, muito em breve. Digamos, no dia seguinte.

Costuma dizer-se que um mal nunca vem só, ditado que reconvertido na dinâmica de Edimburgo redunda em «um ex-membro da trupe nunca vem só». O próximo a instalar-se com o conforto possível na cama de Renton (não é, aliás, à toa que os outros o alcunham de «Rents» ou «Rent Boy», ou «Rapaz de Aluguer») é Simon.

Não se percebe muito bem porquê, mas como já sabemos, «quem precisa de razões» etc., etc.

Cama, comida, tabaco e demais regalias são agora divididas por três, se os dois visitantes estiverem pelos ajustes. O que falta em conforto e tranquilidade a Mark, sobra-lhe em surpresas desagradáveis:

Não acredito que fizeste isto.

Consegui um bom preço por ela.

Mas era a minha televisão!

Calma. Se eu soubesse que ias reagir assim nem me tinha incomodado. Isto não é alugado, de qualquer modo?

Ou

Tens um passaporte?

Porquê?

Conheci um tipo que os compra por uma quantia razoável.

E porque diabo iria eu vender o meu passaporte?

Não sei, é só uma pergunta.

Esta discrepância entre as dinâmicas de Mark e dos outros são poucos surpreendentes. O primeiro está a caminho da sobriedade – com tudo o que isso implica em lógica e compromisso com o mundo envolvente. Os restantes permanecem amarrados à origem alienada, onde tudo é um meio para o único objectivo ajustável à sua bolha: o lucro.

Em relação a Edimburgo, existe contudo uma vantagem. Em Londres, Renton tem o controle da situação.

Servindo-se do emprego na agência imobiliária, instala os outros num apartamento conhecido pelas dificuldades em ser alugado, esperando que o contexto não se altere. Como é óbvio, sem qualquer tipo de cobrança de renda.

Esta nova tentativa de higienização está contudo votada ao fracasso. Duas razões:

 – Alguém aceita por fim alugar a dita casa, provocando uma reacção em cadeia que termina no despedimento de Mark;

 – Chega a notícia do falecimento de Tommy.

«Nem todos podem ter sorte, não é Tommy?».

O seu último acto desesperado foi tentar reconquistar Liz – porque na sua lógica, esta poderia voltar para os braços de um toxicodependente grave, infectado com VIH, a viver num apartamento arruinado e pestilento SE este lhe oferecesse um gatinho.

Para seu espanto, isso não aconteceu, logo, o felino bebé ficou aos inexistentes cuidados de um moribundo Tommy, cada vez mais rodeado de excrementos. Estes provocaram-lhe uma doença grave conhecida como toxoplasmose, que redundou num abcesso no cérebro. A sua agonia terminou, por fim, através de um AVC.

O silêncio espesso é quebrado apenas pela canção de Spud:

Do you think

I would leave you crying

When there’s room

on my horse for two

Climb up here, Tommy

Don’t be dying

I can go just as fast

with two

When we grow up

we’ll both be soldiers

And our horses

will not be toys

And I wonder

if we’ll remember

When we were

two little boys

 

É oficial. Todos eles deixaram de ser crianças. É tempo de colocar as cartas na mesa.

Sick Boy lidera um novo plano – tendo já recrutado o apoio de Begbie e Spud – para um fácil enriquecimento. Basta que reúnam 4000 libras (cerca de 4500€) de modo a rentabilizar o negócio propiciado por dois «marinheiros russos», a braços com 2kgs de heroína. A ideia é agora revender o produto a um contacto de um contacto de Simon, em Londres.

Acabámos de chegar do funeral do Tommy e já pensam em tramóias?

Begbie abre os braços, como quem vira a página.

Dois quilos de heroína, marinheiros russos, estão todos loucos? Isso dá o quê, se formos apanhados, 20 anos de cadeia? Spud, acabaste de sair, estás com pressa de voltar?

Só quero o dinheiro, Mark.

Ninguém vai ser apanhado.

E como pensam arranjar os 4000?

Temos metade. Estamos a contar contigo para o resto. Sabemos que poupaste imenso na tua estadia em Londres.

Peço desculpa, meus caros, mas não tenho 2000.

Tens sim. Espreitei o teu saldo.

Pelo amor da santa…

(…)

Estão certos. O negócio faz-se. Antes de zarparem rumo a Londres, um derradeiro detalhe: alguém terá de comprovar a qualidade do produto. Por diferentes razões, o único elemento disponível para o teste é Mark. Quantas vezes podemos espreitar o vazio? Pelo menos mais uma.

A viagem é tensa. Afinal, Begbie está presente.

Trouxeste as cartas?

O quê? (Simon).

As cartas, a última coisa que te disse foi para não te esqueceres das cartas!

Bem, mas não as trouxe.

Isto assim é uma bosta de uma seca, sem as cartas.

Peço desculpa.

Eu bem sei onde podes meter as desculpas.

Porque não as trouxeste tu?

PORQUE TE DISSE PARA AS TRAZERES, MEU PALHAÇO!

Meu deus…

Renton não toma parte na discussão. Está na WC, a comprovar uma vez mais a qualidade do produto. Será esta a última? Teremos de esperar para ver.



Londres volta a revelar-se a «terra das oportunidades» para a famosa trupe – à vez elegante, cómica, violenta e empática. A fórmula mescla posturas confiantes e economia de palavras.

Um investimento de 4000 libras transforma-se, com uma pitada de sorte, num lucro de 16 000 (quase 18 000€).

A curta mas entusiástica celebração quase nos convence que estamos perante um verdadeiro grupo de amigos. Por um breve segundo, talvez eles próprios se convençam disso. Talvez.

Por exemplo, na conversa que se segue, num bar e diante de múltiplas rodadas, talvez nenhum deles considere de facto a possibilidade de trair os restantes e fugir para os confins do mundo com a totalidade do lucro.

Têm razão. Isso seria pedia muito. Afinal estamos perante Simon Willianmson, «mulherengo e traiçoeiro», Daniel Murphy «um burlão simpático», Francis Begbie «um psicopata violento e perigoso» e Mark Renton. Um deles vai obedecer à sua verdadeira natureza. Um deles, mais cedo ou mais tarde.

É a tua vez de pagar a rodada, «Franco».

Ok, certo. O mesmo outra vez?

«Logo agora que tudo parecia encaminhado».

Um outro cliente não se desvia o suficiente, de modo a evitar que Begbie entorne parte da cerveja na roupa. Não satisfeito, mostra-se relutante em pedir desculpas e de imediato as retira, ao ser provocado por Francis. Já estão de mãos na cabeça? Eu também.

A navalha sai do bolso, já depois de esmagada uma caneca no rosto do outro. Spud, temendo o agravar fatal da situação, aproxima-se, gesto que lhe vale um profundo corte na mão.

Meu deus, «Franco», cortaste-me!

Não te metesses na frente. Mais alguém se quer meter na minha frente? Tu? Ou tu?

Ninguém, claro.

Oh «Rent Boy». Traz-me um cigarro.

Mark obedece, após uns minutos de reflexão. Acende-o e passa-o a Begbie. Este puxa uma baforada e cospe-a na cara do outro.

Impõe-se, em definitivo, uma higienização.

Mark Renton ensaiou-a por duas vezes, tendo-se quem sabe esquecido que «à terceira é de vez». Ou «não há duas sem três?».

A resposta está no quarto de hotel.

No chão, dormem Sick Boy e Spud (este com a mão embrulhada numa ligadura). Na cama está Begbie, totalmente desacordado mas de braços bem firmes em redor do saco milionário. Mark estende-se ao lado dele, alerta. Reflexivo. Nervoso.

Como vai ser, «Rents»? Vais continuar a ver os comboios passar? Ou vais por fim apanhar aquele que te leva para bem longe deste pesadelo?

O pior que lhe pode acontecer? Nada que ele não conheça. A morte nem sempre é o centro do abismo. Quem sabe seja esta, a hora. «A Hora».

Ergue-se, despejando o conteúdo alcoólico do copo no lavatório e substituindo-o por água, que bebe com sofreguidão (uma das melhores alegorias do enredo).

Observa-se no espelho. Mark Renton. «Um tipo com sorte».

Numa sequência de cortar a respiração, os braços de Francis são lentamente afastados, de modo a cederem o pote de ouro. Depois, um passo por cima do corpo de Sick Boy e outro ao lado do corpo de Spud. A diferença entre desprezo e respeito.

Há razões para isso. Daniel está acordado. Observa o amigo, sem o denunciar. Este convida-o, mas Spud não é feito dessa massa.

Existe coragem em partir, mas também existe coragem em ficar.

Contudo, aquela caminhada ao amanhecer, com o bilhete para uma vida melhor ao ombro, transformou Mark Renton num anti-herói dos anos 90.

Now I’ve justified this to myself in all sorts of ways. It wasn’t a big deal, just a minor betrayal. Or we’d outgrown each other, you know, that sort of thing. But let’s face it, I ripped them off – my so called mates. But Begbie, I couldn’t give a shit about him. And Sick Boy, well he’d done the same to me, if he’d only thought of it first. And Spud, well okay, I felt sorry for Spud – he never hurt anybody. So why did I do it? I could offer a million answers – all false. The truth is that I’m a bad person. But, that’s gonna change – I’m going to change. This is the last of that sort of thing. Now I’m cleaning up and I’m moving on, going straight and choosing life. I’m looking forward to it already. I’m gonna be just like you. The job, the family, the ****ing big television. The washing machine, the car, the compact disc and electric tin opener, good health, low cholesterol, dental insurance, mortgage, starter home, leisure wear, luggage, three piece suite, DIY, game shows, junk food, children, walks in the park, nine to five, good at golf, washing the car, choice of sweaters, family Christmas, indexed pension, tax exemption, clearing gutters, getting by, looking ahead to the day you die.

 

Ou, se quiserem em português:

Justifiquei isto a mim próprio de múltiplas maneiras. Não foi coisa grave, apenas uma pequena traição. Ou, já não tínhamos nada em comum, estão a ver, esse tipo de conversa. Mas é preciso que se diga, acabei de os roubar – os meus supostos amigos. Por outro lado, em relação ao Begbie, não me podia estar a borrifar mais para ele. E quanto ao Sick Boy, esse teria feito o mesmo, se tivesse pensado nisso antes. O Spud…bom, ok, tive pena do Spud – nunca fez mal a ninguém. E afinal, porque diabo fiz isto? Podia inventar um milhão de motivos – todos falsos. A verdade pura e dura é que não sou de fiar. Porém, isso vai mudar – eu vou mudar. É a última vez que faço uma destas. Vou largar o vício, seguir em frente, ganhar juízo e «escolher a vida». Mal posso esperar. Vou ser como todos vocês. O emprego, a família, a porra de um ecrã gigante. A máquina de lavar, o automóvel, o leitor de CD e o abre-latas eléctrico, saúde de ferro, colesterol baixo, seguro dentário, empréstimo para a casa, primeira habitação, roupa confortável, bagagem, fatos de três peças, «faça você mesmo», concursos televisivos, comida rápida, filhos, passeios no parque, «nove-às-cinco», excelência no golfe, lavar o carro, escolha de camisolas, Natais em família, reforma garantida, benefícios nos impostos, limpar sarjetas, «tudo a andar», aguardar pelo futuro até ao dia de me finar.

*



(Sick Boy ficou destroçado, Begbie viu-se forçado a cumprir os temidos 20 anos. Spud, por caminhos ínvios, acabou por receber a sua parte do lucro).

Um pensamento sobre “Trainspotting

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