Javier Marías

Viveu entre 1951 e 2022. Foi autor, tradutor e colunista. Marías publicou 15 romances, incluindo Coração tão Branco (1992), «Amanhã na Batalha Pensa em Mim» (1994) e a trilogia «O Teu Rosto Amanhã», considerada por muitos a sua obra mais emblemática. Para além dos romances, publicou ainda três colectâneas de contos e diversos ensaios. Visto como um dos romancistas espanhóis mais prestigiados, tem obras traduzidas em 46 línguas e vendeu nove milhões de cópias em todo o mundo. Recebeu vários prémios, como o Rómulo Gallegos (1995), o International IMPAC Dublin Literary Award (1997), o International Nonino Prize (2011) e o Austrian State Prize for European Literature (2011).

Javier estudou Filosofia e Literatura na Universidade Complutense de Madrid e mais tarde deu aulas em várias universidades – em Madrid, Oxford, Veneza e Massachusetts. Em 1997, recebeu o título de «Rei do Reino de Redonda» do seu antecessor, Jon Wynne-Tyson devido à compreensão demonstrada pelo minúsculo território caribenho e por mencionar a história de um antigo «rei», John Gawsworth, no romance «Todas as Almas» (1989).

 

Javier Marías Franco nasce em Madrid, a 20 de Setembro de 1951. O pai era o filósofo Julián Marías, que chegou a estar preso um curto período e foi depois banido do ensino por ser opositor de Franco (o pai do protagonista de «O Teu Rosto Amanhã» tem uma biografia semelhante). A mãe era a escritora Dolores Franco Manera. Javier é o quarto de cinco filhos. Um dos irmãos transforma-se num historiador de arte e outro num crítico de cinema. É também sobrinho e primo de dois realizadores. Passa alguns períodos da infância nos EUA, uma vez que o pai dá aulas em várias instituições, incluindo Yale. A mãe falece quando o autor conta apenas 26 anos. Este é educado em Madrid e após o período nos Estados Unidos regressa a Espanha para estudar Filosofia e Literatura na Universidade Complutense, entre 1968 e 1973. A partir da década de 70, começa a traduzir obras literárias de Inglês para Castelhano. O primeiro trabalho na área consiste em traduzir guiões da obra «Drácula» para o tio materno.

Marías começa a dedicar-se muito cedo à escrita. Um dos primeiros contos surge quando o autor tem apenas 14 anos. Com 17, foge de casa para escrever o primeiro romance e passa a viver com um tio, em Paris. Inicia a obra «Os Domínios do Lobo», cujo enredo se foca na vida de uma família americana. Gosta de escrever sempre às primeiras horas da manhã. Dedica o livro ao escritor espanhol Juan Benet, que consegue de alguma forma convencer uma editora a publicá-lo, e a Vicente Molina Foix, que lhe fornece o título. Anos mais tarde, passa a escrever «ao serão».

Traduz obras de Updike, Hardy, Conrad, Nabokov, Faulkner, James, Stevenson e Browne. Em 1979, vence o Prémio Nacional de Tradução. Entre 1983 e 1985, lecciona Literatura Espanhola e Tradução na Universidade de Oxford.

Em 1986, publica «O Homem Sentimental» e em 1989 «Todas as Almas», cujo enredo decorre precisamente na Universidade de Oxford. A obra dá ainda origem a um filme, em 1996.

O enredo do romance editado em 1992, Coração tão Branco, está centrado na história de Juan, um tradutor das Nações Unidas. Revela-se um sucesso de crítica e vence mesmo o Prémio da Crítica Espanhola. O romance de 1994, «Amanhã na Batalha Pensa em Mim», tem como protagonista um escritor fantasma.

Note-se que os protagonistas dos romances de Marías escritos depois de 1986 são todos intérpretes ou tradutores, de alguma forma, baseados na experiência do próprio autor enquanto tradutor e professor de tradução. Acerca disso, este afirma que: «São todos personagens que renunciam à própria voz».

Em 2002, lança «O Teu Rosto Amanhã 1 – Febre e Lança», a primeira parte de uma trilogia que se revela o projecto literário mais ambicioso. Este volume tem como protagonista um tradutor e professor veterano, baseado num professor emérito de Estudos Castelhanos da Universidade de Oxford: Sir Peter Russell. A segunda parte, «O Teu Rosto Amanhã 2 – Dança e Sonho», é publicada em 2004. Em 2007, é lançado o derradeiro volume, «O Teu Rosto Amanhã 3 – Veneno e Sombra e Adeus». Em 2009, a trilogia é publicada num só volume.

Segue-se o romance «Os Enamoramentos», em 2011, acerca de uma mulher que se vê enredada num crime misterioso.

Escreve também, com regularidade, para o jornal El País.

Entretanto, no seguimento de uma tradição relativamente humorística, é nomeado «Rei do Reino de Redonda». Diversas entidades têm, ao longo dos tempos, considerado a ilha de Redonda uma micronação. De acordo com o escritor de fantasia M. P. Shiel, no ano de 1929, Redonda tinha sido estabelecida enquanto «reino independente» algumas décadas antes, no século XIX. O título de monarca da ilha tem vindo a ser atribuído até aos dias de hoje, embora sempre com duvidosa seriedade. O dito «Reino» é com frequência associado a um certo número de figuras pretensamente aristocráticas, cujos títulos são atribuídos pelo elemento que detém o papel de «Rei».

Após o episódio, o autor passa também a responder por Xavier I e a partir do ano 2000 estabelece uma pequena editora chamada Reino de Redonda. A publicação de estreia é uma obra de M. P. Shiel, primeiro «Rei de Redonda». O romance «Todas as Almas» contém um retrato do poeta John Gawsworth, terceiro «Rei de Redonda». Apesar da validade de todo o processo ser dúbia, sobretudo depois da morte de Gawsworth, o retrato de Marías afectou de tal forma o «monarca reinante» na época, Jon Wynne-Tyson, que este abdicou em favor do espanhol, em 1997.

O autor atribuiu inúmeras honrarias durante o seu «reinado» a figuras públicas que estimava, incluindo Pedro Almodóvar, António Lobo Antunes, John Ashbery, Pierre Bourdieu, William Boyd, Michel Braudeau, A. S. Byatt, Guillermo Cabrera Infante, Pietro Citati, Francis Ford Coppola, Agustín Díaz Yanes, Roger Dobson, Frank Gehry, Francis Haskell, Eduardo Mendoza, Ian Michael, Orhan Pamuk, Arturo Pérez-Reverte, Francisco Rico, Sir Peter Russell, Fernando Savater, W. G. Sebald, Jonathan Coe, Luis Antonio de Villena e Juan Villoro.

Criou ainda um prémio literário, o Prémio Reino de Redonda, cujos elementos do júri eram já portadores de honraria. Além do valor monetário, os vencedores listados abaixo receberam também um «título»:

2001 – J. M. Coetzee

2002 – John H. Elliott

2003 – Claudio Magris

2004 – Éric Rohmer

2005 – Alice Munro

2006 – Ray Bradbury

2007 – George Steiner

2008 – Umberto Eco

2009 – Marc Fumaroli

2010 – Milan Kundera

2011 – Ian McEwan

Javier Marías sucumbe a uma pneumonia causada por Covid-19, em Madrid, a 11 de Setembro de 2022, com 70 anos. É relembrado por alguns como o «melhor escritor espanhol da sua geração».


Romance publicado em 1992.

Durante um almoço de família, Teresa, acabada de regressar de lua-de-mel, vai à casa de banho, olha-se ao espelho, desabotoa a blusa e mata-se com um tiro no coração. Muitos anos depois, este segredo continua a fascinar Juan, cujo pai foi casado com Teresa antes de casar com a sua mãe. Jovem, recém-casado e ainda pouco adaptado à mudança de estado civil, Juan procura descobrir o motivo por trás do suicídio de Teresa. Só uma pessoa sabe a razão disto e guardou para si esse segredo obscuro durante muitos anos. À medida que procura saber mais, Juan sentirá um mal-estar crescente e uma sensação de «desastre iminente» em relação ao seu próprio casamento.

Segundo o jornal The New York Times «a técnica de escrita de Marías, desafiante e sedutora, atinge aqui o seu pináculo». O The Independent afirma: «a partir de um suicídio, exploramos os segredos de dois casamentos através de um estilo hipnótico, sinistro e belo».

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