J. D. Salinger

transferirViveu entre 1919 e 2010. Escritor conhecido sobretudo pelo seu romance À Espera no Centeio. Foi criado em Manhattan e aventurou-se a escrever contos logo no Secundário. Pressionado pelo pai para se dedicar ao negócio da importação de carne, começou por arranjar emprego na Europa, mas ficou tão mal impressionado com a realidade nos matadouros que decidiu escolher outra profissão. Abandonou a Áustria um mês antes desta ser anexada pela Alemanha Nazi, em Março de 1938. Em 1942, começou a encontrar-se com Oona O’Neill, filha do dramaturgo Eugene O’Neill. Apesar de considerá-la egocêntrica, telefonava-lhe com frequência e escrevia-lhe longas cartas. O relacionamento terminou quando Oona se envolveu com Charlie Chaplin, com quem acabou por casar.

Em 1948, o conto «A Perfect Day for Bananafish» foi publicado na revista do «The New Yorker», onde mais tarde apresentou diversos trabalhos. À Espera no Centeio surgiu no formato livro em 1951. O seu retrato de alienação juvenil e perda de inocência na figura do protagonista Holden Caulfield valeu-lhe grande sucesso entre o público adolescente. O romance permanece popular e controverso hoje em dia, vendendo em média 250 mil exemplares por ano. Tal sucesso valeu-lhe uma indesejada atenção e escrutínio públicos, fazendo com que Salinger se tornasse recluso e mantivesse uma preocupação obsessiva com a sua privacidade durante meio século. Publicou o seu último trabalho em 1965 e concedeu a derradeira entrevista em 1980. Morreu de causas naturais em Janeiro de 2010, na sua residência de Cornish, New Hampshire.

Depois do sucesso de À Espera no Centeio seguiu-se uma colectânea de contos, «Nove Histórias» (1953), um livro que reuniu uma novela e um conto, «Franny e Zooey» (1961), e outro com duas novelas, «Carpinteiros, Levantai Alto o Pau de Fileira» e «Seymour: Uma Introdução» (1963). O seu derradeiro trabalho publicado foi uma novela intitulada «Hapworth 16, 1924», em 1965. Depois disso, seguiram-se problemas judiciais nos anos 80 com o seu biógrafo Ian Hamilton e o surgimento de vários livros de memórias no final dos anos 90 escritos por pessoas próximas: Joyce Maynard – uma ex-amante – e Margaret Salinger, a sua filha. Já em 2009, foi de novo notícia nos jornais quando instaurou um processo judicial relacionado com direitos de autor contra outro escritor, que alegadamente terá usado uma das suas personagens de À Espera no Centeio.

 

Jerome David Salinger nasceu em Manhattan, Nova Iorque, no primeiro dia de Janeiro de 1919. O pai, Sol Salinger, era comerciante e tinha origens judias de ascendência lituana. A mãe, Marie, nascera no Iowa e tinha origem alemã, irlandesa e escocesa, mas mudou o nome para Miriam e passou a apresentar-se como judia depois de casar com o pai de Salinger. Este só descobriu que a mãe não era judia de nascença no dia do seu bar mitzvah. Tinha ainda uma irmã mais velha, Doris.

Na juventude, frequentou escolas públicas situadas na zona Oeste de Manhattan. A partir de 1932, a família mudou de residência e Salinger foi inscrito numa escola privada. O autor revelou dificuldades de adaptação nesta fase, vendo-se obrigado a descobrir estratégias de integração, como dizer que o seu nome era Jerry, por exemplo. A família tratava-o por Sonny. Apesar disso, foi aceite na equipa de esgrima, escrevia para o jornal da escola e participou em peças de teatro. Revelou «talento inato para a representação», embora o pai fosse contra a hipótese de o filho se tornar actor. Os progenitores acabaram por inscrevê-lo numa Academia Militar, na região da Pensilvânia. Salinger começou então a escrever histórias «debaixo das mantas, com a ajuda de uma lanterna».

Os resultados académicos nesta altura revelam um aluno «medíocre», com poucas possibilidades de atingir o sucesso da «Família Glass», personagens fictícias que surgem na colectânea «Nove Histórias», apesar de os testes revelarem um QI acima da média. Ainda assim, termina o Secundário em 1936, seguindo para a Universidade de Nova Iorque. Pondera o ensino especial, mas acaba por desistir de tudo no final do primeiro ano. É então que o pai procura convencê-lo a dedicar-se ao negócio da importação de carne, tendo o autor ensaiado uma experiência de trabalho nessa área, na Europa, primeiro em Viena e depois numa cidade polaca. Apesar de ter aceite a proposta paterna voluntariamente, ficou tão mal impressionado com a rotina dos matadouros que decidiu de uma vez por todas dedicar-se a outra profissão. Esta aversão ao negócio da carne e o posterior afastamento do pai estão por certo na base do seu vegetarianismo na idade adulta. Acaba por abandonar a Áustria um mês antes da anexação por parte da Alemanha Nazi, em 1938.

No Outono desse ano, o autor inscreveu-se numa Universidade da Pensilvânia, assinando uma coluna no jornal académico onde se fazia crítica de cinema. Desiste no final do primeiro semestre. No ano seguinte, volta a inscrever-se numa Universidade, desta vez Columbia, onde frequenta um curso de escrita leccionado por um editor de uma revista conceituada, Whit Burnett. Segundo este, Salinger passou despercebido até ao final do segundo semestre, altura em que «acordou para a vida» e escreveu três contos. Burnett disse-lhe que as suas histórias eram engenhosas e sólidas, escolhendo «The Young Folks» – um conjunto de quadros sobre juventudes errantes – para publicar na sua revista, o que aconteceu em 1940. Burnett tornou-se no mentor de Salinger, tendo ambos mantido contacto por longos anos.

Mais tarde, em 1942, o autor começou a relacionar-se com Oona O’Neill, filha do dramaturgo Eugene O’Neill. Apesar de considerá-la completamente egocêntrica, confessando mesmo a um amigo que «a pequena Oona está bastante apaixonada pela pequena Oona», telefonava-lhe com frequência e escrevia-lhe longas cartas. O relacionamento termina quando esta se envolve com Charlie Chaplin, com quem acabará por casar. Entretanto, em finais de 1941, Salinger trabalhara por pouco tempo num navio de cruzeiro nas Caraíbas.

Ainda nesse ano, começa a enviar contos para a revista «The New Yorker». Sete deles são rejeitados, mas em Dezembro, a publicação aprova finalmente um enredo chamado «Slight Rebellion off Madison», passado em Manhattan e acerca de um adolescente alienado de nome Holden Caulfield, com «dúvidas sobre a Guerra». O ataque do Japão a Pearl Harbor, nesse mês, anula a publicação do texto, desfecho que desmoralizou por completo o autor. Chegará mesmo a confessar, em «Carpinteiros…»:

Acho que vou odiar o ano de 1942 até à morte, por uma questão de princípio.

O conto só vê a luz do dia, na revista, em 1946. Logo na Primavera de 1942, vários meses depois dos EUA entrarem na Segunda Guerra, o escritor foi recrutado, tendo entrado depois em diversos combates importantes, incluindo o Dia D.

Durante a campanha final, entre a Normandia e a Alemanha, Salinger fez por se encontrar com Ernest Hemingway, um escritor que o influenciara e que trabalhava na altura como correspondente de guerra em Paris. O primeiro ficou impressionado com a simpatia e modéstia do segundo, considerando-o mais «acessível» do que este deixava transparecer em público. Hemingway apreciou o talento de Salinger. Tornaram-se correspondentes, tendo o autor confessado a Ernest que a relação entre eles era uma das poucas coisas boas que tinha saído da Guerra.

Salinger foi inserido numa unidade de espionagem, na qual usou as suas capacidades de poliglota (Alemão e Francês) para interrogar prisioneiros. Toda a experiência deixou profundas sequelas emocionais, tendo o autor sido hospitalizado algumas semanas devido a stress de guerra, logo após a vitória final. Confessará à filha que:

Por mais que se viva, nunca nos livramos do cheiro a carne humana queimada.

Os biógrafos defendem que Salinger se baseou em diversas experiências reais para construir várias histórias, sendo pelo menos uma narrada por um soldado traumatizado. O autor não abandonou a escrita durante a campanha, publicando alguns textos em revistas conhecidas, mas vendo rejeitadas as propostas enviadas ao «The New Yorker» entre 1944 e 1946, apesar das inúmeras tentativas (15 poemas só em 1945).

Com o fim da Guerra, o autor inscreveu-se num programa de «Reabilitação Alemã», com a duração de seis meses. Viveu na cidade de Weissenburg e, pouco depois, casou-se com Sylvia Welter. Regressou com ela para os EUA, em Abril de 1946, mas o casamento desmoronou-se em breves oito meses, tendo esta regressado à Alemanha. Em 1972, a filha do autor, Margaret, estava com ele quando este recebeu uma carta de Sylvia. Segundo ela, o pai olhou para o envelope e antes mesmo de o abrir, rasgou-o. Era a primeira vez que recebia notícias dela depois da separação, mas segundo Margaret: «Quando ele cortava com uma pessoa, cortava de vez».

Em 1946, Whit Burnett aceitou ajudar Salinger a publicar uma colectânea de contos. Intitulada «The Young Folks», era composta por 20 histórias, metade já publicadas noutros formatos, metade por publicar. Apesar de Burnett alegar que o livro seria aprovado e ter mesmo negociado um pagamento adiantado de 1000 dólares com o autor, o dono da editora em causa discordou da decisão de Burnett e cancelou o projecto. Salinger culpou o amigo pelo fracasso e os dois afastaram-se.

Em 1947, o autor submeteu um conto intitulado «The Bananafish» à «The New Yorker». William Maxwell, um dos editores, ficou suficientemente impressionado para pedir ao escritor que «continuasse a trabalhar o texto». O processo demorou um ano, numa estreita colaboração entre todos, tendo a revista por fim aprovado o conto agora chamado «A Perfect Day for Bananafish», publicado em 1948. A partir daqui, os editores ofereceram a Salinger um contrato de «primeira avaliação», que lhes dava a primazia de escolha em futuros trabalhos. O sucesso desta iniciativa, a par de alguns problemas anteriores com outras revistas, cujos editores por vezes alteravam as histórias sem consentimento, fez com que o autor decidisse publicar quase em exclusivo na «The New Yorker». «Bananafish» foi também a primeira história publicada a mencionar os Glasses, uma família fictícia composta por dois artistas vaudeville reformados e os seus sete filhos: Seymour, Buddy, Boo Boo, Walt, Waker, Zooey e Franny. Salinger acabou por criar outras sete histórias sobre a família, focando-se em particular na personagem Seymour, o brilhante mas problemático filho mais velho.

No início da década de 40, o autor confessara a Whit Burnett o seu forte desejo de vender os direitos de adaptação ao cinema de uma das suas histórias, de modo a conquistar a independência financeira. Depois de uma primeira promessa falhada em 1943, que o desiludiu, o autor precipitou-se a aceitar nova proposta surgida em meados de 1948. Apesar de Salinger se revelar esperançado no resultado final, o filme revelou-se um desastre, afastando-se de tal forma do argumento original que acabou por ser considerado «uma mutilação». Depois disto, o autor nunca mais aceitou propostas de adaptação dos seus textos.

Também na década de 40, Salinger admitiu aos amigos mais próximos estar a trabalhar num romance em que o protagonista era Holden Caulfield, a personagem principal do conto «Slight Rebellion off Madison». À Espera no Centeio acaba por ser publicado em meados de 1951. O enredo é simples, focando-se na vida do adolescente de 16 anos em Nova Iorque, após a sua expulsão de uma escola secundária elitista, a quarta no total. O livro destaca-se sobretudo pela personalidade e voz interna do narrador na primeira pessoa, Holden. Este é perspicaz mas parcial, à medida que oferece opiniões sobre lealdade, a «falsidade» do mundo adulto e a sua própria duplicidade. Numa entrevista de 1953, Salinger confessou que o romance é «em parte» autobiográfico:

A minha juventude foi bastante parecida à do rapaz do livro. (…) Foi um grande alívio poder partilhar isso com o público.

As reacções iniciais da crítica foram diversas, desde as mais positivas por parte do «The New York Times» – «primeiro romance invulgarmente brilhante» – até outras que criticavam a linguagem monótona e a «imoralidade e perversão» do protagonista, dono de discursos críticos contra a Religião e abordagens libertinas aos tópicos da prostituição e sexo descomprometido. Entre o público, o livro revelou-se um sucesso. Em apenas dois meses fizeram-se oito edições e a obra passou 30 semanas na lista dos mais vendidos.

Ao sucesso inicial, seguiu-se um período de natural acalmia, mas no final da década de 50 a obra tornara-se «o livro de eleição de qualquer adolescente, um manual indispensável de onde se retiravam maneirismos e rituais de alienação». Chegou mesmo a ser comparado às «Aventuras de Huckleberry Finn», de Mark Twain. Os jornais começaram a fazer artigos sobre «O Culto do Centeio» e o romance acabou banido em diversos países (e em diversas escolas americanas), à conta do que a comunidade católica considerava ser o «uso excessivo de linguagem abusiva». Uma lista detalhada fornecida por um progenitor indignado incluía 237 «que diabo», 58 «sacana», 31 «que inferno» e um episódio de flatulência.

Já nos anos 70, diversos professores que recomendaram a leitura do livro acabaram por ser despedidos ou forçados a demitir-se. Um estudo de 1979 descobriu que a obra tem a dupla e contraditória distinção de ser, em simultâneo, «o romance mais censurado e o segundo mais recomendado», logo atrás de «Ratos e Homens», de John Steinbeck. Apesar de tudo, continua a ser um dos textos mais lidos, vendendo cerca de 250 mil cópias por ano, num total superior a 10 milhões de livros vendidos.

À conta do sucesso, Salinger recebeu (e rejeitou) inúmeras ofertas para adaptar o argumento ao Cinema. A sua ex-amante, Joyce Maynard, acabou por confessar em 1999 que:

A única pessoa capaz de representar Holden Caulfield no Cinema teria sido o próprio J. D. Salinger.

Em meados de 1951, questionado sobre as suas influências literárias, o autor revelou:

Um escritor, quando é convidado a debater o seu trabalho, tem de anunciar convictamente os autores que aprecia. Adoro Kafka, Flaubert, Tolstoi, Tchécov, Dostoievski, Proust, O’Casey, Rilke, Lorca, Keats, Rimbaud, Burns, E. Brontë, Jane Austen, Henry James, Blake, Coleridge. Não falarei de autores vivos, não me parece correto (ainda que O’Casey estivesse vivo na altura).

Em 1953, o autor publicou uma colectânea de sete contos na «The New Yorker» («Bananafish» entre eles), adicionando dois previamente rejeitados. O trabalho ficou conhecido como «Nove Histórias», tendo recebido críticas em geral positivas, apesar de alguma má vontade de certos sectores. Revelou-se ainda um sucesso financeiro, algo raro no mercado dos contos. A obra aguentou três meses na lista dos mais vendidos, embora o autor começasse nesta fase a rejeitar grandes campanhas publicitárias.

À medida que À Espera no Centeio recebia maior atenção e publicidade, Salinger tornava-se mais recluso. Ainda em 1953, abandonou Nova Iorque e mudou-se para uma pequena localidade em New Hampshire, embora nos primeiros tempos se mantivesse relativamente sociável, sobretudo com estudantes locais. Convidava-os com frequência para sua casa, onde se ouvia música e estes debatiam problemas escolares. A certa altura, uma destas estudantes convenceu o autor a dar uma entrevista para o jornal local. No seguimento disto – e por considerar excessivo o interesse provocado pela peça – Salinger cortou todos os contactos com a comunidade estudantil, sem mais explicações. Diminuiu também as aparições públicas na cidade, marcando encontro regular com um único amigo, jurista. A rematar, passou a publicar cada vez menos. Depois da edição de «Nove Histórias», em 1953, publica apenas quatro textos até ao fim dessa década, dois em 1955, um em 1957 e outro em 1959.

Salinger lançou depois «Franny e Zooey» em 1961, e «Carpinteiros…» em 1963. Ambas reúnem duas novelas acerca de membros da família Glass. Na badana de «Franny e Zooey», o autor aborda o seu crescente interesse em manter a privacidade:

Na minha opinião algo subversiva, o desejo que um escritor revela pelo anonimato e obscuridade é uma das coisas mais importantes para o sucesso da sua carreira.

Nos princípios de 1955, já com 36 anos, Salinger conhece e casa com Claire Douglas. Nascem dois filhos, Margaret e Matthew.

O autor força Claire a desistir dos estudos e a viver com ele, quando esta estava apenas a quatro meses de completar a sua formação académica. Mudam-se para uma zona isolada, o que provoca a quase total ausência de contactos com o mundo exterior durante longos períodos.

De acordo com posteriores relatos da filha, as coisas complicam-se ainda mais depois do seu nascimento, já que a mãe alega que a atenção e carinho de Salinger se transferem na totalidade para Margaret. A criança estava grande parte do tempo doente, mas o autor recusa-se a consultar um médico. Claire admitirá mais tarde que esteve «à beira do colapso» no Inverno de 1957, tendo mesmo feito planos para matar a filha e cometer suicídio. O esquema é quase posto em prática durante uma viagem a Nova Iorque com Salinger, mas esta acaba por responder a um impulso, pondo-se em fuga com Margaret. Passados alguns meses, deixa-se convencer pelo marido a regressar.

Em Setembro de 1961, a revista «Time» fez capa com o autor. O artigo focava-se na sua «vida de recluso» e revelava que a planeada obra em redor da família Glass «está longe de terminar…Salinger planeia uma trilogia». Contudo, este acaba por editar apenas uma história, «Hapworth 16, 1924», uma novela epistolar focada na personagem de sete anos de idade Seymour Glass e na sua estadia num campo de férias. É o primeiro trabalho publicado em seis anos, mas o resultado revela-se catastrófico. Por esta altura, Salinger isolara Claire dos amigos e da família, transformando-a (nas palavras da filha), numa «autêntica prisioneira». Acabam por se divorciar em definitivo em 1967.

Em 1972, com 53 anos, Salinger inicia um relacionamento com Joyce Maynard, de apenas 18 anos, situação que se prolongou por nove meses. Maynard, à época, tinha já experiência como escritora na revista «Seventeen». O «The New York Times» pediu-lhe entretanto um artigo, que surgiu com o título «An Eighteen-Year-Old Looks Back On Life» e que fez dela uma celebridade. Salinger escreveu-lhe então uma carta, avisando-a para os perigos da fama. Seguiram-se outras 25 cartas entre ambos, até que Maynard se mudou para a casa de Salinger, no Verão do ano de caloira na Universidade de Yale. Esta não regressou para o segundo ano e ficou mais nove meses na casa do autor. Segundo este, o relacionamento terminou porque a estudante queria filhos e o autor sentia-se demasiado velho para isso. No entanto, na sua autobiografia, Maynard apresenta outra versão, explicando que Salinger terminou com tudo subitamente e recusou-se a mudar de ideias, apesar desta ter desistido da faculdade por ele, abdicando até de uma bolsa de estudos. Joyce confessará mais tarde ter descoberto o segredo do escritor. Este mantinha, alegadamente, o hábito de seduzir mulheres jovens e ingénuas através de cartas, método que aplicou também com a sua última mulher, uma enfermeira que estava noiva de outro homem quando conheceu o autor.

No período com Maynard, Salinger manteve uma certa disciplina na escrita, dedicando algumas horas à tarefa durante as manhãs. De acordo com ela, o autor concluiu dois romances em 1972. Numa rara entrevista concedida ao «The New York Times» em 1974, confessa:

Existe uma tranquilidade fantástica que vem com a ausência de publicação. Gosto de escrever, adoro escrever, mas faço-o para mim próprio, enquanto prazer privado.

Segundo Joyce, este encarava o processo de publicar como uma «maldita interrupção». A filha descreve o complexo sistema de arquivo que o autor encontrara para os manuscritos não-publicados: «Uma marca vermelha significava que em caso de morte, podíamos publicar aquilo como estava. Se a marca fosse azul, podia ser publicado, mas só depois de revisto e por aí adiante». Segundo um vizinho, o autor confessara-lhe uma vez que tinha já 15 romances na gaveta.

Em finais de 1992, o «The New York Times» escreve que:

Nem sequer um incêndio, que consumiu metade da sua casa na última terça-feira, foi suficiente para afugentar do seu interior o eremita J. D. Salinger, autor do romance clássico acerca de rebelião adolescente intitulado ‘À Espera no Centeio’. O mesmo tornou-se também famoso por transformar a privacidade numa forma de vida.

Salinger morreu de causas naturais, no início de 2010. Tinha 91 anos. Testemunhos confirmam que o autor «partira a anca no ano anterior, mas tinha uma saúde excelente até se dar um declínio súbito, na Passagem do Ano». Terá tido uma morte pacífica.

Numa entrevista de 1946, revelou: «escrevo quase sempre sobre gente muito jovem». De facto, os adolescentes marcam presença em toda a sua obra, desde o primeiro texto publicado («The Young Folks») até À Espera no Centeio, passando pelas histórias sobre a família Glass. Em 1961, certos críticos confirmaram que a primazia dada por Salinger aos adolescentes é uma das grandes razões do seu sucesso entre os jovens leitores, sendo outra a consciência que estes tinham de que o autor se dirigia a eles e falava por eles (representando-os), através de uma linguagem honesta e verídica que retratava com fidelidade as suas inconfessadas opiniões acerca do mundo. Com ironia, afirmam que Salinger era «uma mente brilhante que se recusava a sair da adolescência». A linguagem utilizada – enérgica, realista e económica – foi considerada inovadora na época, sendo vista como «factor distintivo».

Salinger mantinha uma relação de proximidade com as suas personagens, recorrendo a técnicas como o monólogo interior, as cartas e extensos telefonemas para explanar os seus diálogos. Tais recursos estilísticos convenceram-no de que conseguira «colocar nas mãos das personagens o respectivo destino». Temas comuns são ainda a inocência, a adolescência e o «efeito corruptor de Hollywood e do mundo em geral». Ainda o desfasamento entre adolescentes e adultos «hipócritas», bem como a inteligência perceptiva e precoce das crianças.


transferir (2)

Romance publicado em 1951. Tinha como destinatário um público adulto, mas acabou por se transformar num fenómeno entre os leitores adolescentes, à conta da abordagem que faz aos temas da angústia e alienação juvenis, a que se associa uma crítica à superficialidade do mundo adulto. O protagonista da história, Holden Caulfield, transformou-se num ícone da rebeldia jovem. O romance aborda ainda temas mais complexos, como sejam a inocência, a identidade, a pertença, a perda e a comunhão.

 

Enredo

 

Holden Caulfield, de apenas 17 anos, reside numa instituição não-identificada no sul da Califórnia, perto de Hollywood, corre o ano de 1951. A sua intenção é mudar-se para casa do irmão, D.B., escritor e veterano da Segunda Guerra, apesar de estar zangado por este ter decidido tornar-se argumentista de cinema, apenas um mês depois do regresso. Holden recorda os acontecimentos do último Natal.

A narrativa começa na Academia Preparatória de Pencey, um colégio privado de elite situado em Agerstown, Pensilvânia. No ano anterior, Holden foi expulso da instituição à conta dos maus resultados e só é esperado depois das férias natalícias, na quarta-feira seguinte. Planeia regressar a casa apenas nesse dia, de modo a não estar presente quando os pais receberem a notícia da sua expulsão. Depois de faltar a um combate de esgrima em Nova Iorque por se ter esquecido do equipamento no metro, acaba por ser convidado para a casa do seu professor de História, Mr. Spencer. Este tem bom fundo, mas revela-se um idoso monótono. Se por um lado lhe dá alguns conselhos, por outro acaba por embaraçar Holden, ao criticar o trabalho que este fez para a disciplina.

O adolescente acaba por regressar à residência estudantil, exibindo na cabeça o novo boné que comprou na cidade. O seu colega, Robert Ackley, é um dos poucos que também não foi ao combate. Impopular entre os pares, acaba por enfadar Holden com uma postura impertinente e bisbilhoteira. Este, no entanto, como tem pena dele, tolera a sua presença. Mais tarde, Holden aceita escrever um trabalho de Inglês para o seu colega de quarto, Ward Stradlater, que está de saída para um encontro amoroso. Fica contudo algo perturbado quando descobre que o par de Stradlater é uma velha conhecida, Jane Gallagher, de quem Holden gosta e se sente protector. Nessa noite, decide ir ver uma comédia de Cary Grant na companhia do amigo Mal Brossard e de Ackley. Uma vez que os outros já viram o filme, acabam por passar o tempo a jogar pinball. Voltam para casa. Quando Stradlater regressa, horas mais tarde, revela-se incapaz de apreciar o texto profundo que Holden escreveu por e para ele, versando a luva de baseball do falecido irmão de Holden, Allie. Para além disso, recusa-se a confessar se dormiu com Jane. Furioso, Holden esmurra-o, mas acaba derrotado na escaramuça que se segue. Uma vez que continua a insultar o outro, mesmo depois de terminado o assunto, este acaba por dar-lhe um golpe que o deixa inconsciente e de nariz a sangrar. Refugiando-se no quarto de Ackley, Holden sofre nova desilusão ao ver-se tratado com indiferença pelo outro. Farto da «hipocrisia» dos colegas, decide num impulso abandonar a residência mais cedo, vender a máquina de escrever para obter fundos e apanhar um comboio para Nova Iorque. Mantém o plano de não ir para casa antes de quarta-feira e aguardar num hotel que os pais sejam informados da sua expulsão. No comboio, encontra a mãe de um estudante do colégio, rico e irritante, chamado Ernest Morrow, inventando mentiras sobre o filho e sobre ele próprio.

Já num táxi, Holden pergunta ao condutor se os patos do lago em Central Park migram durante o Inverno, uma dúvida que o assalta com frequência, mas o homem presta-lhe pouca atenção. Hospeda-se no envelhecido Edmont Hotel. Passa uma noite a dançar com três turistas femininas, de Seattle, no bar do hotel. Gosta da dança com uma delas mas acaba por lamentar não conseguir manter conversa com nenhuma. Segue-se uma visita desalentada a um clube nocturno de Greenwich Village, cenário que aviva a sua angústia interna. Acaba por aceitar a companhia de uma prostituta chamada Sunny, que o segue até ao quarto. Ao aperceber-se que esta terá mais ou menos a sua idade, Holden muda radicalmente de atitude com ela assim que entram. Por entre o seu desconforto, confessa que apenas quer alguém com quem falar, fazendo com que ela perca a paciência e saia. Apesar de ter recebido o pagamento correcto, regressa na companhia do chulo, Maurice, em busca de mais dinheiro. Holden insulta o outro, mas Sunny rouba-lhe o dinheiro da carteira e Maurice dá-lhe um soco no estômago, antes de desaparecerem. Algum tempo depois, convence-se que foi baleado pelo criminoso, fantasiando uma vingança na qual o mata com um tiro de pistola automática.

Na manhã seguinte, sente-se cada vez mais deprimido e a precisar de contacto humano. Lembra-se de telefonar a Sally Hayes, com quem saiu algumas vezes. Apesar de considerá-la «a rainha da hipocrisia», acabam por marcar encontro para essa tarde, de modo a assistirem a uma peça de teatro. De caminho, Holden compra um disco especial para a irmãzinha de dez anos, Phoebe. Passa por um rapazinho que canta «If a body catch a body coming through the rye», situação que o deixa mais bem-disposto. O encontro, apesar de agradável de início, começa a descarrilar quando Sally lhe apresenta um amigo chamado George. Depois da peça, Holden e Sally decidem ir patinar na pista de gelo do Rockefeller Center. Às tantas, este dá início a um sermão contra a sociedade em geral, comportamento que acaba por assustar Sally. Sem freio, Holden propõe-lhe de um sopro que fujam juntos naquela noite, rumo ao isolamento de New England, mas esta não se convence com aquele plano súbito e trapalhão. Recusa. A conversa azeda em definitivo e os dois separam-se, furibundos.

Holden decide então encontrar-se com um velho colega de escola, de nome Carl Luce, e os dois marcam bebidas no Wicker Bar, dentro do Seton Hotel. Durante o encontro, Holden acaba por aborrecer Carl à conta da sua fixação em sexo. Depois da partida do outro, o primeiro embebeda-se, ensaia patéticas seduções com diversos adultos e telefona a uma Sally inflexível. Por fim, exausto e falido, deambula por Central Park de modo a esclarecer o mistério dos patos, mas parte o disco destinado a Phoebe, sem querer. Tomado pela nostalgia, recorda os tempos de escola primária e outros episódios agradáveis de infância. Põe-se a caminho de casa, desejoso de ver a irmãzinha. Entra às escondidas no apartamento dos pais e acorda Phoebe – a única pessoa com quem parece ser capaz de partilhar os sentimentos. Esta, apesar de contente por vê-lo, descobre com facilidade que ele foi expulso, censurando-lhe a ausência de rumo e a dificuldade que revela em interessar-se seja pelo que for. Quando esta lhe pergunta directamente se ele gosta de alguma coisa, Holden confessa-lhe uma fantasia recente (baseada numa interpretação errada do poema de Robert Burns «Comin’ Through the Rye»): imagina-se enquanto único guardião de milhares de crianças que brincam numa enorme plantação de centeio, cercada por um precipício. A sua tarefa passa por salvar as crianças que, no seu deleite, se abeirem distraidamente da encosta. Ou seja, pretende ser de facto o Salvador no Centeio, ou «estar à espera no centeio». Em resumo, planeia ser o guardião da inocência de todas as crianças.

Quando a mãe regressa, Holden escapa e vai visitar um antigo e admirado professor de Inglês, Mr. Antolini, que hoje em dia se transformou num professor universitário em Nova Iorque. Este confessa a sua preocupação com o antigo aluno, temendo que o mesmo «acabe muito mal». Aconselha-o a escolher um rumo e a aplicar-se na vida. Apesar de exausto com tudo, o protagonista acata com educação o conselho recebido. Mr. Antolini oferece-lhe estadia nessa noite. Contudo, de madrugada, Holden enerva-se depois de acordar com as festas que o professor lhe faz na cabeça, que o primeiro interpreta como sendo uma proposta homossexual. Confuso e inseguro, vai-se embora e passa o resto da noite na sala de espera de uma estação de comboios, onde se entrega cada vez mais ao desespero. Arrepende-se agora de ter fugido da casa do professor, depois de reflectir melhor no episódio. Passa depois a manhã de segunda-feira a vaguear pela Quinta Avenida.

Abandonando qualquer ideia de acolhimento ou compreensão por parte da vida citadina, Holden volta a ceder a um impulso, planeando desta vez partir para Oeste e entregar-se a uma vida de eremita enquanto funcionário de uma bomba de gasolina. Marca encontro com Phoebe à hora do almoço, de modo a explicar-lhe a decisão e despedir-se. Junto ao portão da escola da irmã, enerva-se com um graffiti onde se pode ler a palavra «foder», recusando aceitar a possibilidade das crianças descobrirem o seu significado. Quando se reúnem, a irmã traz consigo uma malinha e pergunta se pode ir com ele, apesar de também ter vontade de actuar numa peça infantil marcada para sexta-feira. Holden recusa a proposta, o que irrita a irmã e faz com que este desista de partir. Esforça-se então por animá-la, propondo-lhe que falte às aulas na parte da tarde e façam uma visita ao Jardim Zoológico, mas tal não resolve o diferendo. No entanto, ao passarem por um carrossel, o irmão compra-lhe um bilhete e Phoebe perdoa-o. O protagonista tolera enfim alguma alegria e leveza ao observar a irmãzinha a divertir-se no carrossel.

Num curto epílogo, Holden alude brevemente ao encontro com os pais nessa noite, onde se fez passar por doente e prometeu retomar os estudos noutra escola a partir de Setembro. Confessa ainda que acabou por sentir a falta dos antigos colegas, avisando o leitor que o processo de partilha de experiências fará com que se olhe com outra luz para os diversos intervenientes.

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