Viveu entre 1850 e 1894. Foi romancista, ensaísta, poeta e escritor de viagens. Entre as obras principais, destaque para A Ilha do Tesouro (1883), «O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde» (1886) e «Raptado» (1893), para além da colectânea de poesia «O Jardim Poético da Infância» (1885).
Nascido e criado na cidade escocesa de Edimburgo, Stevenson sofreu de problemas respiratórios durante grande parte da vida, mas conservou um ritmo de escrita e de viagens profícuo, lutando sempre contra a doença. Em jovem, integrou-se nos círculos literários de Londres, sendo encorajado por autores e críticos como Sidney Colvin, Andrew Lang, Edmund Gosse, Leslie Stephen e W. E. Henley, especulando-se que este último terá servido de modelo para a famosa personagem Long John Silver em A Ilha do Tesouro. Em 1890, estabeleceu-se na ilha de Samoa onde, alarmado com a crescente influência da cultura europeia e norte-americana no território, reconverteu o estilo de escrita, abandonando o lado romântico e aventureiro em prol de um realismo pessimista. Morreu devido a uma hemorragia cerebral em 1894, com apenas 44 anos.
Positiva ao longo da vida, a reputação do autor entre os críticos tornou-se mais instável após a morte, embora hoje em dia a obra mereça aprovação generalizada.
Robert nasce na cidade escocesa de Edimburgo, a 13 de Novembro de 1850, sendo filho de Thomas Stevenson, um reputado engenheiro de faróis e da mulher, Margaret Isabella. O nome de baptismo é Robert Lewis Balfour Stevenson. Com 18 anos, decide alterar a grafia de «Lewis» para «Louis» e aos 23 abdica do apelido «Balfour». Profissionalmente, a família dedicara-se à concepção de faróis: O pai de Thomas (avô de Robert) era um famoso engenheiro civil (Robert Stevenson) e os tios trabalhavam no mesmo ramo, assim como um bisavô materno. Por sua vez, a família materna vinha de classe alta, pois os antepassados já eram proprietários de terras no séc. XV. O avô materno, Lewis Balfour, era um clérigo da Igreja da Escócia e entre os tios destacam-se o médico George William Balfour e o engenheiro marinho James Balfour. Robert passa grande parte das férias de infância na casa do avô materno.
«Interrogo-me com frequência acerca do que terei herdado daquele velho clérigo». – Escreve mais tarde. – «Calculo que, de facto, ele gostasse de dar sermões e eu também, embora esteja por provar que qualquer um de nós gostasse de os ouvir».
O avô e a mãe sofriam de problemas respiratórios, vendo-se com frequência obrigados a procurar climas mais amenos. Robert herda de ambos uma predisposição para tosses e febres, exacerbada quando a família se muda para uma casa húmida e fria, em 1851. Escolhem outro local, mais ensolarado, quando este faz seis anos, mas a tendência para adoecer com gravidade no Inverno mantém-se até aos 11. A enfermidade, aliás, é um estado recorrente na vida adulta, contexto que o deixa extremamente magro. Considera-se, à época, que padece de tuberculose, mas avaliações modernas especulam que poderia tratar-se de bronquiectasia ou sarcoidose. A família passa alguns Verões na vila termal de Bridge of Allan e em Peebles, nas Fronteiras Escocesas, na tentativa de melhorar a saúde de Robert e da mãe. A estadia em Bridge of Allan terá inspirado as tribulações da personagem Ben Gunn, em A Ilha do Tesouro.
Os pais são presbiteranos devotos, mas não demasiado fervorosos. A enfermeira, Alison Cunningham (conhecida por Cummy), é mais beata. Ao misturar crenças religiosas com mitos populares, provoca desde cedo um conjunto de pesadelos à criança, que exibe uma inquietação precoce com a religião. Por outro lado, esta cuida de Robert com afecto durante os períodos de enfermidade, lendo-lhe textos da Bíblia e de outras fontes. Stevenson recordará esta fase num poema integrante da obra «Jardim Poético da Infância», que é dedicada à antiga enfermeira.
Robert é filho único, possuindo uma aparência estranha e um comportamento invulgar. Encontra dificuldades em integrar-se quando inicia a escola primária, aos seis anos. Quando, aos 11, é transferido para uma escola privada (Edinburgh Academy), o problema mantém-se. Por outro lado, alinha sem problemas em brincadeiras animadas com os primos durante as férias de Verão em Colinton, um subúrbio de Edimburgo. Os frequentes períodos de doença forçam-no a ausentar-se muitas vezes da escola primária, sendo necessário recorrer a explicadores privados. Aprende a ler tarde, por volta dos sete ou oito, embora já antes dite histórias à mãe e à enfermeira, além de escrever inúmeras composições ao longo da infância. O pai fica orgulhoso com a vocação do filho, uma vez que ele próprio havia escrito histórias nos tempos livres, antes do avô de Robert as descobrir e ordenar que Thomas «esquecesse tais disparates e ganhasse juízo». Este financiará depois a primeira publicação do filho, com 16 anos, intitulada «The Pentland Rising: A Page of History, 1666», um relato de uma rebelião de Covenantistas publicada em 1866, no 200.º aniversário do evento.
Em Outubro de 1864, ainda com 13 anos e no seguimento de algumas melhorias de saúde, começa a frequentar a escola privada onde ficará até ir para a universidade. Em Novembro de 1867, Stevenson entra na Universidade de Edimburgo para estudar Engenharia. Revela, desde o início, total falta de entusiasmo pelo assunto, dedicando-se sobretudo a evitar as aulas. Esta época torna-se importante, sobretudo, pelas amizades que estabelece com outros estudantes, em especial num clube intitulado «The Speculative Society». Lá conhece Charles Baxter, que mais tarde se tornará no seu agente financeiro, mas também um professor, de seu nome Fleeming Jenkin, que organiza teatro amador em casa e conta com a participação de Stevenson. Robert, mais tarde, escreverá a biografia de Jenkin. Contudo, o destaque vai para um primo, Robert Alan Mowbray Stevenson (conhecido por «Bob»), um jovem animado e despreocupado que, em vez de seguir a carreira usual na família, tinha optado por estudar Artes.
Nesse mesmo ano, a família aluga uma casa de férias (cottage) na aldeia de Swanston, a sul de Edimburgo, muito próximo das Pentland Hills, para usufruto estival. Assim será durante 13 anos, até 1880. Durante essa época, o jovem Robert Louis passará longos períodos na zona, atraído pela tranquilidade da vida no campo e pela sensação de isolamento. É provável que esse tempo o tenha depois influenciado na escrita e no desenvolvimento de uma visão mais abrangente da vida, em especial no amor pela natureza e por locais remotos.
Todos os anos, nas férias universitárias, Stevenson também viaja para inspeccionar os trabalhos de engenharia da família. Em 1868, isso leva-o à vila costeira de Anstruther e a Wick, na região de Caithness, onde permanece seis semanas. Regressa a esta última várias vezes ao longo da vida, incluindo mesmo o local nos relatos de viagens. Acompanha também o pai numa viagem oficial aos faróis situados nas ilhas de Orkney e Shetland, em 1869, e passa três semanas na ilha de Erraid, em 1870. Aprecia as viagens muito mais pela matéria-prima que estas fornecem à escrita do que por qualquer interesse em engenharia.
Agrada-lhe também o facto de uma viagem semelhante feita por Walter Scott ter servido de inspiração para um romance deste, em 1822 – «The Pirate». Em 1871, Robert informa o pai de que pretende iniciar uma carreira nas Letras. Apesar de uma certa desilusão, não se pode dizer que o progenitor tenha ficado muito surpreendido e a mãe confessará mais tarde que o marido se declarou «confortavelmente resignado» com a escolha do filho. É-lhe apenas aconselhado, por questões de maior segurança financeira, que efectue alguns estudos em Direito. Num dos poemas, Stevenson comenta o facto de se ter afastado da carreira tradicional na família:
Say not of me that weakly I declined
The labours of my sires, and fled the sea,
The towers we founded and the lamps we lit,
To play at home with paper like a child.
But rather say: In the afternoon of time
A strenuous family dusted from its hands
The sand of granite, and beholding far
Along the sounding coast its pyramids
And tall memorials catch the dying sun,
Smiled well content, and to this childish task
Around the fire addressed its evening hours.
A par da escolha profissional, Robert afasta-se da tradição familiar noutros aspectos. Veste-se de forma mais boémia e deixa crescer o cabelo. Embora limitado por uma mesada rígida, gasta algum tempo em bares escuros e bordéis. Por fim, rejeita o Cristianismo e declara-se ateu.
No início de 1873, aos 22 anos, descobre que o pai encontrou alguns textos de cariz libertino que ele e um primo estão a ler e onde se exorta, entre outras coisas:
Há que renegar tudo o que os nossos pais nos ensinaram.
Questionado acerca do assunto, confirma que deixou de acreditar em Deus e está farto de fingir ser uma coisa que não é: «Terei de alimentar esta mentira toda a minha vida?». O pai fica devastado: «Assim sendo, toda a minha existência é um fracasso». A mãe, por sua vez, admite ser essa a pior notícia que recebeu na vida. Stevenson escreve a um amigo, ironizando:
Deus meu, que coisa tão agradável, esta. Destruir a felicidade das duas únicas pessoas neste mundo (provavelmente), que querem saber de ti para alguma coisa.
O episódio, contudo, aparenta não significar um ateísmo ou agnosticismo convictos. Mais tarde, já em 1878, escreverá uma carta apaziguadora ao pai:
O Cristianismo é, entre outras coisas, uma doutrina estranha, nobre e muito sensata. (…) Como vês, considero-a uma doutrina de vida e um veículo de sapiência para o mundo. (…) Tenho bom coração, acredito em mim, no meu semelhante e no Deus que nos criou. (…) Existe um texto interessante na Bíblia, não sei bem onde, que afirma de certo modo que todas as coisas se conciliam para aqueles que amam o Senhor. Por mais estranho que isto te pareça, de uma maneira ou de outra, tudo tem contribuído para me aproximar daquilo que penso que gostarias que eu fosse. É um mundo estranho, sem dúvida, mas existe um Deus para aqueles que se dedicam a procurá-lo.
Apesar disto, Robert não volta a frequentar a igreja e publicará um ensaio, mais tarde, onde afirma:
As nossas religiões foram moldadas para nos agradar (…) e fazem pouco mais do que amansar-nos e enfraquecer-nos. A raça humana é algo muito mais antigo que os dez mandamentos.
Nos finais de 1873, com 23 anos, Stevenson visita um primo em Inglaterra e durante a estadia conhece duas pessoas que se tornam muito importantes para ele: Fanny (Frances Jane) Sitwell e Sidney Colvin. Sitwell é uma mulher de 34 anos, com um filho mas separada do marido. A sua personalidade atrai muitos dos que a conhecem, incluindo Colvin, que se casará com ela em 1901. Robert também se deixa enlevar e mantém com ela uma correspondência terna durante alguns anos, na qual oscila entre o papel de pretendente e de filho (trata-a por «Madonna»). Colvin, por sua vez, transforma-se no conselheiro literário e é o primeiro a editar-lhe as cartas, postumamente.
Stevenson depressa se integra na vida literária londrina, tornando-se conhecido de muitos dos escritores da época, incluindo Andrew Lang, Edmund Gosse e Leslie Stephen, editor do jornal literário The Cornhill Magazine, que se interessa pelo trabalho do jovem. A certa altura, ambos visitam um paciente num hospital onde está internado William Ernest Henley, um poeta enérgico e conversador que tem uma perna de madeira. Este torna-se um amigo chegado e ocasional colaborador de Stevenson até ambos se afastarem devido a uma discussão, em 1888. Pensa-se que o mesmo terá servido de inspiração para a personagem Long John Silver, em A Ilha do Tesouro.
Ainda em 1873, Robert passa uma época em Menton, na Riviera Francesa, numa tentativa de melhorar a saúde. Regressa melhor, em Abril de 1874 e dedica-se outra vez ao trabalho, embora regresse àquela localidade várias vezes. Efectua viagens frequentes e prolongadas aos arredores da Floresta de Fontainebleau, alojando-se em Barbizon, Grez-sur-Loing e Nemours e socializando com todas essas comunidades artísticas. Viaja igualmente até Paris, para conhecer galerias e teatros. É aceite na Ordem dos Advogados em Julho de 1875, com 24 anos, motivando o pai a fazer uma placa com a inscrição «R.L. Stevenson, Advogado». Embora os conhecimentos em Direito lhe tenham sido úteis na escrita, Stevenson nunca exerce advocacia, dedicando-se por completo à literatura e às viagens. Numa delas, percorre de canoa algumas regiões da Bélgica e de França na companhia de Sir Walter Simpson, um amigo do círculo literário e frequente companheiro de aventuras. A jornada servirá de inspiração para o primeiro livro de viagens, «An Inland Voyage» (1878).
O autor regressa a Grez-sur-Loing em Setembro de 1876, onde conhece Fanny Van de Grift Osbourne, uma norte-americana de Indianápolis. Esta tinha-se casado aos 17 anos e mudado para o estado do Nevada de modo a juntar-se ao marido, Samuel, no final da Guerra Civil Americana. Nascem três filhos – Isobel (ou «Belle»), Lloyd e Hervey (falecido em 1875). Porém, revoltada com as várias infidelidades do marido, separa-se deste com frequência. Em 1875, viaja com os filhos para França onde, na companhia da filha, aproveita para estudar Arte. Quando Robert a conhece, Fanny é já uma reconhecida contista.
Stevenson regressa a casa pouco depois, mas não esquece Fanny e escreve mesmo um ensaio intitulado «On falling in love» para o The Cornhill Magazine. Reencontram-se nos inícios de 1877 e tornam-se amantes. Passam grande parte desse ano juntos, em França. Em Agosto de 1878, Fanny regressa a São Francisco e ele permanece na Europa, de modo a fazer uma viagem a pé que inspirará a obra «Travels with a Donkey in the Cévennes» (1879). Vai depois ter com ela em Agosto de 1879, com 28 anos, contrariando a opinião dos amigos e sem avisar os pais. Compra um bilhete de segunda classe para o navio a vapor Devonia, de modo a poupar dinheiro mas também para se inteirar acerca desse modo de viagem e aumentar o sentimento de aventura. Ao desembarcar, apanha um comboio para a Califórnia a partir de Nova Iorque. Escreverá mais tarde sobre a experiência na obra «The Amateur Emigrant». Embora útil para a carreira, a experiência destrói-lhe a saúde.
Está numa situação bastante grave quando chega à cidade de Monterey, na Califórnia, onde é assistido por agricultores locais. Hospeda-se algum tempo no French Hotel, hoje em dia transformado num museu dedicado à sua memória e rebaptizado «Stevenson House». Nessa fase, confessa jantar muitas vezes «à pala» num restaurante próximo, gerido por um francês de nome Jules Simoneau. Anos mais tarde, enviará ao benfeitor uma cópia do romance «O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde» (1886), explicando que «teríamos um caso ainda mais estranho se Robert Louis Stevenson alguma vez se esquecesse de Jules Simoneau».
Em Dezembro de 1879, com 29 anos, recupera ao ponto de ser capaz de prosseguir viagem até São Francisco, onde depois de chegar se vê obrigado a sobreviver «com meia dúzia de trocos por dia, ou menos, sobrecarregado de trabalho e de pensamentos negros», procurando subsistir apenas da escrita.
Perante isto, no final do Inverno cai de novo num estado muito grave. Fanny está agora divorciada e livre dos respectivos problemas de saúde, logo, capaz de se encontrar com ele e tratá-lo. «Após uns tempos», escreve Robert, «o meu espírito redescobriu uma energia divina e tem agora empurrado o meu pobre corpo até à recuperação com grande sucesso e firmeza». Quando o pai é informado da situação, envia-lhe dinheiro para ajudá-lo a sair do período difícil.
Casam-se em Maio de 1880. Ela tem 40 anos e ele 29. O mesmo lembra que estava reduzido a «um mero aglomerado de tosse e ossos, muito mais adequado a uma mortalha do que a um fato de noivo». Viaja depois com a mulher e o enteado, Lloyd, para a região norte de São Francisco, especificamente Napa Valley e passa uma lua-de-mel estival nas proximidades de uma mina abandonada no Mount Saint Helena (conhecido hoje em dia como Robert Louis Stevenson State Park). Descreve a experiência na obra «The Silverado Squatters». É por esta altura que trava conhecimento com Charles Warren Stoddard, co-editor da revista literária Overland Monthly, que o incita a fazer uma viagem ao Pacífico Sul, ideia que nunca mais esquecerá. Em Agosto, viaja de barco com Fanny e Lloyd até casa, onde reencontra os pais e o amigo Sidney Colvin em Liverpool, felizes por recebê-lo. Gradualmente, Fanny revela-se capaz de amenizar os problemas entre o marido e o sogro, integrando-se na família devido ao conhecido charme e sentido de humor.
Passam então a viajar entre a Escócia e o continente antes de, por fim, se estabelecerem na vila costeira de Bournemouth, no sul de Inglaterra, em 1884. Stevenson julga com isso beneficiar das vantagens da brisa marítima. Habitam numa casa que apelidam de «Skerryvore», replicando o nome de um farol escocês construído por um tio.
A partir de Abril de 1885, o autor de 34 anos começa a beneficiar da companhia do romancista Henry James. Ambos já se conheciam dos tempos de Londres e tinham mantido contacto escrito em artigos de jornal e correspondência, onde professavam admiração pelo trabalho um do outro. James mudara-se para Bournemouth de modo a ajudar nos cuidados a uma irmã inválida, aceitando agora o convite do amigo para que o visite em «Skerryvore» e conversem à mesa do jantar.
Praticamente confinado à cama, Stevenson considera-se «um gorgulho num biscoito». Apesar da fraca saúde, os três anos em Bournemouth revelam-se os mais produtivos a nível literário, resultando nas obras mais famosas: Ilha do Tesouro, «Raptado», «O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde» (com a qual cimentou a reputação), «O Jardim Poético da Infância» e «Underwoods».
O pai falece em 1887, deixando o autor de 36 anos com o espírito livre para seguir os conselhos médicos e ponderar uma completa mudança de clima. Começa por viajar para o estado do Colorado, com a mãe viúva e a restante família. Contudo, ao chegarem a Nova Iorque, decidem passar o Inverno nas regiões montanhosas próximas de Saranac Lake. Sob clima rigoroso, Stevenson escreve alguns dos melhores ensaios e inicia igualmente o romance «The Master of Ballantrae». Entretanto, planeia sem grande rigor um cruzeiro ao Pacífico Sul, no ano seguinte.
Robert considera-se um autor na linha de Sir Walter Scott, um contador de histórias com o talento para afastar os leitores de si próprios e respectivas circunstâncias. Desagrada-lhe o Realismo francês, focado no lado mais sórdido e negativo do ser humano. Questiona, por exemplo, Émile Zola sobre a razão pela qual este nunca procura encontrar nobreza nos protagonistas que cria.
Discorda também de Henry James quando o mesmo afirma que um romance compete com a vida. Pelo contrário, diz, um romance é sempre incapaz de igualar a complexidade da existência, limitando-se a retirar desta o suficiente para apresentar um padrão específico e harmonioso:
O único método do Homem, falemos de pensamento ou de criação, é observar à distância o caos e deslumbramento da realidade…A Vida é monstruosa, infinita, ilógica, abrupta e tocante; uma obra de arte, em comparação, é ordenada, finita, contida, racional, passageira e frágil…O romance, que é uma obra de arte, existe não devido às semelhanças com a vida, que são forçadas e concretas…mas na infinita dissemelhança da vida, que é planeada e significativa.
Não é claro, apesar de tudo, se os amigos discordavam profundamente nesta questão. Stevenson oferece a James um exemplar de «Raptado», mas a obra preferida do outro é A Ilha do Tesouro.
Concebida enquanto literatura juvenil (sobretudo para rapazes), a obra revela «ausência de psicologia ou escrita elaborada» mas parece dever o sucesso obtido à capacidade de libertar o género das «correntes do didactismo vitoriano».
Ao longo da faculdade, o autor considerara-se um «fervoroso socialista». Contudo, logo aos 26 anos começa a produzir textos onde, de certa forma, se arrepende de tais convicções: «Entendo agora que ao tornar-me conservador, com o passar dos anos, não faço mais do que repetir o ciclo normal de mudança e de viagem no pensamento dos homens». De acordo com o primo e biógrafo, Sir Graham Balfour, Stevenson «caso exercesse o direito de voto, ao longo da vida, teria sempre apoiado o candidato conservador».
Em Junho de 1888, aluga um iate, Casco, ao médico e político Samuel Merritt e zarpa do porto de São Francisco com a família. A embarcação «rasga caminho pelas águas profundas e desertas, afastada de qualquer rota comercial e possibilidade de auxílio». A brisa marítima e o entusiasmo da aventura restauram-lhe temporariamente a saúde, permitindo-lhe navegar o Pacífico leste e central ao longo de três anos, com extensas paragens nas ilhas do Havai. Torna-se então um bom amigo do Rei Kalākaua (o penúltimo monarca das ilhas), bem como da sobrinha deste, a Princesa Victoria Kaiulani, que tem ascendência escocesa. Passa algum tempo nas ilhas Gilbert, no Taiti, na Nova Zelândia e na Samoa. É nesta fase que conclui «The Master of Ballantrae», para além de compor duas baladas inspiradas nas lendas dos ilhéus e escrever o conto «The Bottle Imp». As experiências destes anos ficam guardadas em correspondência e na obra «Nos Mares do Sul» (editada a título póstumo). Em 1889, juntamente com o enteado Lloyd, embarca no navio comercial Equator e visita Butaritari, Mariki, Apaiang e Abemama, nas ilhas Gilbert.
Ainda nesse ano, desloca-se a uma colónia de leprosos no Havai, onde raparigas doentes são tratadas por um conjunto de religiosas. Ensina-as a jogar croquet e após o regresso, uma semana depois, envia-lhes um piano a partir de Honolulu.
Faz uma terceira e última viagem a partir de Sydney, na Austrália, no Janet Nicoll, iniciada em Abril de 1890 e de novo com destino às ilhas. A intenção é escrever outro livro de viagens que dê seguimento a «Nos Mares do Sul», mas é a mulher quem publica um diário sobre essa aventura.
Estabelecem ligação com outro viajante, Jack Buckland, cujas histórias de vida enquanto negociante nas ilhas servem de base para a personagem Tommy Hadden, na obra «Os Naufragistas» (1892), escrita em parceria com Lloyd Osbourne. Buckland fará depois uma visita à família Stevenson em Vailima, em 1894.
Antes, em Dezembro de 1889, o autor, já com 39 anos, mudara-se com a família alargada para a ilha de Upolu, no arquipélago da Samoa. Em Janeiro do ano seguinte compram uma parcela de terra em Vailima, uma vila no interior situada a alguns quilómetros da capital Apia, onde constroem a primeira casa com dois andares em toda a ilha. A irmã de Fanny, Nellie Van de Grift Sanchez, recorda que «foi na Samoa que a palavra ‘casa’ começou a ter alguma espécie de significado para esta família de nómadas ciganos». Em Maio de 1891, junta-se a mãe de Robert, Margaret. Enquanto a mulher se dedica a gerir e trabalhar na propriedade, este, com 40 anos, adopta o nome nativo Tusitala (que na língua local significa «Contador de Histórias») e começa a investigar as lendas do território. Por vezes, troca uma lenda alheia por uma das suas narrativas. A primeira obra traduzida para a língua local é «The Bottle Imp» (1891), que apresenta uma comunidade do Pacífico alargada enquanto cenário para uma fábula moral.
Ao mergulhar na cultura das ilhas, o autor afirma ter experimentado um «despertar político», tomando consciência da frequente presença de potências rivais (Inglaterra, Alemanha e Estados Unidos) nos portos de Samoa, através de navios de guerra. Conclui que, à semelhança das Terras Altas Escocesas (comparações com a terra natal surgem naturalmente), uma sociedade composta por clãs indígenas está impreparada para a chegada de estrangeiros, que fomentam rivalidades e divisões internas em proveito próprio. De facto, perante o aumento das pressões externas, a sociedade samoana imerge em guerras intestinas.
Incapaz de permanecer um mero «romancista», Stevenson torna-se um repórter e um agitador, despejando cartas na redacção do The Times acerca do comportamento impróprio de europeus e norte-americanos. Tais preocupações podem também ser encontradas na obra «Nos Mares do Sul».
Embora afirme desprezar a política – «Costumava desdenhar da profissão de canalizador, mas como esta me parece nobre comparada com a do político», escreve ele ao amigo Sidney Colvin – Stevenson vê-se obrigado a tomar partido.
Fica sobretudo alarmado com a visível ingenuidade económica dos nativos – nomeadamente a incapacidade de assegurar a propriedade das terras através da gestão e trabalho das mesmas. Em 1894, meses antes de morrer, o autor dirige-se aos líderes insulares:
Existe apenas um modo de proteger o arquipélago da Samoa. Escutem-me antes que seja tarde. Terão de construir estradas e jardins, cuidar das vossas árvores e vender os frutos de forma lucrativa. Em resumo, terão de ocupar e gerir o território…caso não o façam, outros o farão. Deixará de ser vosso ou dos vossos descendentes caso nada façam com ele. Todos vocês, assim sendo, serão expulsos rumo à escuridão.
Robert conhece estes fenómenos, pois assistira a exemplos não só no Havai, onde igrejas locais se haviam transformado em «lápides, cercadas pelas plantações de açúcar do homem branco», mas também na Irlanda e «nas regiões montanhosas do meu país natal, a Escócia».
Eram pessoas decentes, corajosas, alegres, piedosas e muito semelhantes às pessoas de Samoa, excepto no facto de serem muito mais versadas e capazes nas artes da guerra, que vos é tão cara. E, no entanto, o destino bateu-lhes à porta, da mesma forma que bate agora à vossa e eles não estavam preparados…
Cinco anos após a morte de Stevenson, o arquipélago da Samoa acaba mesmo por ser colonizado e partilhado entre a Alemanha e os Estados Unidos.
Estima-se que o autor terá escrito cerca de 700 000 palavras durante a época em Samoa. Termina «A Costa de Falesá», um relato na primeira pessoa de um negociante de polpa de coco escocês, numa ilha dos mares do sul, alguém vulgar nas acções e no pensamento. Limitado na percepção e na imaginação, trata-se de alguém confortável com os próprios preconceitos e dedicado acima de tudo a encontrar «brancos» para as suas filhas «mestiças». Os vilões do enredo são brancos e comportam-se de forma implacável e traiçoeira com os nativos.
Stevenson considera esta obra um ponto de viragem, do romance tradicional para o romance realista. Escreve sobre isso ao amigo, Sidney Colvin:
Trata-se do primeiro enredo realista sobre os mares do sul; com um verdadeiro protagonista desta região e detalhes do quotidiano. Todos os que tentaram, que eu tenha visto, deixaram-se levar pelo aspecto romântico e acabaram por ficar com uma espécie de épico açucarado, despido de todo o efeito… Eu, pelo contrário, tenho os contornos e fragrância de uma coisa a sério. Ficarás a saber mais sobre estas paragens depois de leres o meu texto do que se tivesses lido uma biblioteca inteira.
«The Ebb-Tide» (1894), sobre as aventuras de três vagabundos que ficam retidos no porto de Papeete, no Taiti, é o «microcosmos de uma sociedade imperialista, gerida por homens brancos gananciosos mas incompetentes, sendo o trabalho assegurado por nativos há muito vitimizados que cumprem as funções automaticamente, fiéis à religião que nenhum dos europeus se dá ao trabalho de respeitar». A obra confirma a mudança de estilo na escrita do autor, que abandona por completo os romances de aventuras de cariz juvenil. Lê-se na primeira frase:
Ao longo das ilhas do Pacífico, um enxame de homens europeus, oriundos de muitas nações e quase todas as classes sociais, procuram actividade e disseminam doença.
À semelhança de «A Costa de Falesà», «The Ebb Tide» é considerado, pelos críticos contemporâneos, como tendo vários paralelismos com as obras de Conrad.
Nunca se esquecendo da realidade escocesa e sentindo-se de novo em plena forma literária, escreve ainda «Catriona» (1893), uma sequela do romance «Raptado» (1886), onde lemos a continuação das aventuras de David Balfour.
Apesar de sentir, enquanto escritor, que «nenhum outro autor foi capaz de ter tantos projectos ao lume», no final de 1893 Robert teme que a «veia criativa» tenha sido esgotada, em parte devido à necessidade de sustentar as despesas em Vailima. Ainda assim, num último assomo de energia, dá início à obra «Weir of Hermiston». «É tão boa que me assusta», terá dito sobre a mesma, pressentindo que era o melhor trabalho. Situado na Escócia do século XVIII, o enredo versa sobre uma sociedade que, por mais diferente que seja da de Samoa, testemunha à semelhança desta um colapso na conduta e estruturas sociais, provocando com isso uma crescente ambivalência moral.
A 03 de Dezembro de 1894, Stevenson está a falar com a mulher e com dificuldades para abrir uma garrafa de vinho. De repente, exclama: «O que é isto?». Depois pergunta à mulher: «A minha cara parece-te estranha?». Em seguida, colapsa. Morre em poucas horas, com apenas 44 anos, provavelmente em consequência de uma hemorragia cerebral. De acordo com investigações feitas em 2000, Robert poderia sofrer de uma condição hereditária que, a ser real, explicaria os crónicos problemas respiratórios, as frequentes hemorragias pulmonares e a morte prematura.
Informados, os nativos insistem em guardar o corpo durante a noite e em carregar o falecido em ombros até ao Monte Vaea, onde o enterram num local com vista para o oceano. A partir de um poema do autor, inscreve-se este epitáfio no túmulo:
Under the wide and starry sky
Dig the grave and let me lie
Glad did I live and gladly die
And I laid me down with a will
This be the verse you grave for me
Here he lies where he longed to be
Home is the sailor home from the sea
And the hunter home from the hill
Metade dos manuscritos originais de Stevenson perderam-se, incluindo os d’ A Ilha do Tesouro, «A Flecha Negra» e «The Master of Ballantrae». Os herdeiros venderam alguns documentos durante a Primeira Guerra Mundial e muitos outros foram a leilão em 1918.
O autor era uma celebridade em vida, sendo admirado por muitos outros escritores como Marcel Proust, Arthur Conan Doyle, Henry James, J. M. Barrie, Rudyard Kipling e Emílio Salgari. Mais tarde, Cesare Pavese, Bertolt Brecht, Ernest Hemingway, Jack London, Vladimir Nabokov e G. K. Chesterton.
No entanto, passou depois a ser considerado um escritor de segunda linha durante grande parte do séc. XX. Visto como um autor de livros infantis e do género de terror, foi depreciado por figuras como Virgínia Woolf (filha do antigo mentor de Stevenson, Leslie Stephen) e Leonard Woolf, sendo gradualmente excluído do cânone literário ensinado nas escolas.
Em finais do séc. XX, este mereceu nova avaliação, voltando a ser considerado um artista de grande alcance e inteligência, um teórico literário, um ensaísta e um crítico social, para além de uma testemunha da história colonial nas ilhas do Pacífico e um humanista. Hoje em dia é colocado ao mesmo nível de autores como Joseph Conrad (para quem Stevenson foi uma influência) e Henry James. Apesar das oscilações na reputação a nível académico, o autor nunca perdeu o apreço popular, sendo o 26.º mais traduzido no mundo, à frente de Oscar Wilde e Edgar Allan Poe.
A propósito, escreve o crítico de cinema Roger Ebert:
«Dizia-me um amigo em conversa, recentemente, que nunca conheceu uma criança que tenha gostado de ler A Ilha do Tesouro ou «Raptado».
Respondi-lhe que eu também não, quando os li em criança. Embora, acrescentei, tenha relido esses livros mais tarde, em adulto, tendo gostado imenso de ambos. E o mesmo aconteceu com «O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde».
Na verdade, Stevenson é um excelente autor de histórias para adultos e deve ser colocado ao mesmo nível de Joseph Conrad e Jack London em vez de ser misturado com o Winnie the Pooh e o Peter Pan».
Romance histórico e de aventuras publicado em 1883 mas que decorre no séc. XVIII e apresenta um enredo acerca de «piratas e ouro escondido». Considerado um romance de amadurecimento, destaca-se pela atmosfera, personagens e sequências de acção.
Desde a publicação, a obra passou a influenciar a imagem do pirata na cultura popular, incluindo certos lugares comuns tais como ilhas tropicais desertas, mapas do tesouro marcados com um X e marinheiros com pernas de pau e papagaios ao ombro.
Enredo
Em meados do séc. XVIII, um velho marinheiro autodenominado «O Capitão» aloja-se na estalagem rural «Admiral Benbow Inn», nos arredores de Bristol. Ocupa as manhãs a calcorrear as falésias e praias locais, procurando navios com o auxílio de uma luneta. Durante as tardes e noites, incomoda os restantes clientes ao entoar canções piratas e relatar grandes aventuras marítimas. Avisa o filho do estalajadeiro, Jim Hawkins, para este ter cuidado com «um homem do mar com uma só perna».
Um errante conhecido como Black Dog estabelece uma disputa com «O Capitão», antigo companheiro de bordo. O desacordo é acerca de um estranho mapa, contexto que leva «O Capitão», cujo verdadeiro nome é Billy Bones, a expulsar Black Dog do local após uma luta de sabres. Pouco depois, sofre uma apoplexia. Nessa mesma noite, o pai de Jim falece, vítima de doença. Alguns dias mais tarde, Pew, um pedinte cego e antigo pirata, entrega uma nota a Bones, onde se menciona «o ponto X». Pouco depois, este morre da apoplexia.
Pew e alguns cúmplices atacam a estalagem mas enfrentam a resistência de agentes alfandegários a cavalo, que os perseguem. Pew acaba por ser fatalmente espezinhado por um animal. Jim e a mãe colocam-se em fuga, levando consigo um pacote que encontram na arca de Bones.
Nele, está incluído um mapa da ilha onde o Capitão Flint, um temível pirata, escondeu um tesouro. Jim mostra tudo ao Dr. Livesey, um médico e magistrado, e a um proprietário local, Trelawney, motivando-os a organizar uma expedição à ilha. O jovem acompanha-os, enquanto criado de bordo.
Partem de Bristol, num barco à vela fretado por Trelawney, o Hispaniola e sob as ordens do Capitão Alexander Smollett. Jim constrói uma boa amizade com o cozinheiro, Long John Silver, que só tem uma perna. A tranquilidade é abalada quando o primeiro imediato, Sr. Arrow, que sofre de alcoolismo, é arrastado borda fora durante uma tempestade. Alguns dias mais tarde, de madrugada, Jim é obrigado a esconder-se quando escuta sem querer uma conversa entre vários membros da tripulação, liderados por Silver, na qual recordam o passado enquanto piratas ao serviço de Flint. Planeiam amotinar-se após a descoberta do tesouro e assassinar o capitão, bem como os poucos tripulantes que ofereçam resistência. Jim consegue informar discretamente o Capitão Smollett, Trelawney e Livesey.
Após o desembarque na ilha, o jovem escapa para o interior da selva ao observar Silver a matar um tripulante que recusa juntar-se ao motim. No seguimento, encontra um pirata abandonado, Ben Gunn, também ele um antigo membro da tripulação de Flint. Os amotinados tomam posse das armas e assumem o controlo do navio, enquanto Jim e os fiéis a Smollett se refugiam na ilha. Após um momento de pausa, os primeiros atacam, provocando baixas em ambos os lados. Jim consegue abrir caminho até ao Hispaniola e levanta a âncora, aproveitando o impulso da maré vazante. No interior da embarcação depara com o pirata Israel Hands, ferido após uma disputa alcoolizada com outro elemento. Hands auxilia o jovem a ancorar o barco na costa norte e logo depois tenta apunhalá-lo, mas este abate-o com o auxílio de um par de pistolas.
Jim regressa a terra e à zona do confronto onde verifica, horrorizado, que Silver e os restantes piratas são os únicos presentes. Silver diz-lhe que, ao notarem a ausência do barco, ambos os grupos acordaram uma trégua onde se estabeleceu que os piratas ficavam na posse do mapa e autorizavam, em troca, a partida dos outros. Na manhã seguinte, Livesey vem tratar os homens doentes e feridos, aconselhando Silver a ter cuidado quando descobrir o local do tesouro.
Após várias disputas pela liderança, Silver põe-se a caminho com o grupo e na posse do mapa, levando Jim como prisioneiro.
A dada altura, encontram um esqueleto com os braços orientados na direcção do pretenso local do tesouro, episódio que perturba todos. Ben Gunn faz ecoar, a partir da floresta, as famosas últimas palavras do Capitão Flint, convencendo os piratas supersticiosos de que o fantasma deste assombra a ilha. Acabam por encontrar uma arca, mas vazia. Furiosos, os piratas ameaçam executar Silver e Jim, mas são afugentados pelo grupo rival, no qual se inclui Gunn. Livesey esclarece que Ben já tinha encontrado, há muito tempo, a maioria do tesouro e levado o mesmo para uma gruta. Os expedicionários carregam o que podem para o Hispaniola e abandonam a ilha, levando apenas Silver como prisioneiro. Ao chegarem ao primeiro porto, na América Espanhola, este rouba um saco com dinheiro e coloca-se em fuga. Os restantes continuam a viagem de regresso a Bristol e dividem o tesouro. Uma parcela nunca chega a ser encontrada mas Jim recusa voltar à ilha «amaldiçoada» para nova busca.
Personagens
Principais
Jim Hawkins – Narrador de grande parte do romance. Filho de um estalajadeiro inglês, aparenta estar em plena adolescência e ansioso por se fazer ao mar em busca de tesouros. Embora demonstre coragem e tenha frequentes gestos de heroísmo, padece também de alguma impulsividade e impetuosidade. À medida que a viagem prossegue, torna-se cada vez mais empático e sensato.
Long John Silver – Um cozinheiro de uma só perna, a bordo do Hispaniola. Silver é nada menos do que o líder secreto dos piratas, revelando-se dissimulado, cruel e ganancioso, mas também carismático, para além de bastante forte (física e mentalmente). Mostra-se atencioso com Jim e talvez simpatize, de facto, com ele.
Dr. David Livesey – Médico e magistrado, narra alguns capítulos do romance. Demonstra sensatez e prudência, para além de ser justo, tratando sem descriminação os ferimentos de piratas ou amigos. Contudo, não hesita em revelar as opiniões e o desacordo em relação aos piratas, de forma clara. Anos antes dos eventos descritos no romance, participou na Batalha de Fontenoy, durante a qual foi ferido.
Capitão Alexander Smollett – O capitão do Hispaniola. De espírito sagaz, desconfia com razão dos marinheiros contratados por Trelawney. Smollett é um verdadeiro profissional, encarando a missão com seriedade e exibindo capacidades de negociador. Acredita na eficácia das regras e desaprova a irreverência de Jim, mas na parte final do romance admite que não gostaria de voltar a envolver o rapaz numa aventura marítima, pois o mesmo transformou-se numa espécie de filho.
John Trelawney – Um proprietário rural rico, que financia a viagem para a ilha. Demasiado crédulo, acaba ludibriado por Silver, que o convence a contratar piratas como membros da tripulação.
Billy Bones – Velho marinheiro que se aloja na estalagem «Admiral Benbow Inn». Antigo primeiro imediato de Flint, revela-se um tipo grosseiro e antipático. Avisa Jim para este ter cuidado com um homem de uma só perna. Na posse de um mapa de tesouro, transforma-se no inadvertido motor de todo o enredo.
Ben Gunn – Antigo membro da tripulação do Capitão Flint. É encontrado na ilha após ter sido lá abandonado três anos antes, pelos membros de outro navio (uma espécie de vingança quando estes não conseguem encontrar o tesouro). Considerado meio louco, demonstra especial admiração por queijo. Ajuda Silver a escapar e, chegado a Inglaterra, recebe £1,000 (equivalente a 200 mil euros hoje em dia), quantia que gasta ou perde em meros 20 dias. Transforma-se depois num trabalhador rural e faz-se membro do coro da igreja.
Secundárias
Alan – Marinheiro honesto que é morto pelos amotinados no desembarque e cujo grito final é escutado por toda a ilha. O episódio antecede em alguns momentos o assassinato de Tom às mãos de Long John.
Allardyce – Um dos seis membros da tripulação de Flint que, após enterrarem o tesouro, são mortos por este, que regressa sozinho ao navio. O corpo de Allardyce é utilizado por Flint enquanto bússola, de modo a reencontrar o local mais tarde.
Job Anderson – Contramestre da embarcação e um dos líderes do motim. Participa na primeira batalha entre os grupos e é morto por Gray quando ataca Jim. Trata-se, provavelmente, de um dos antigos membros da tripulação de Flint, embora tal nunca se confirme. A par de Hands e Merry, sugere um possível local do tesouro a Silver e convence-o a iniciar o motim antes do previsto.
Sr. Arrow – Primeiro imediato do Hispaniola. Alcoólico, revela-se inútil nas funções e acaba substituído por Job Anderson antes mesmo da chegada à ilha. Silver fornece-lhe a bebida, disfarçadamente, contribuindo assim para que ele caia borda fora durante uma noite tempestuosa.
Black Dog – Antigo membro da tripulação de Flint e depois um dos associados de Pew que aparece na «Admiral Benbow» para confrontar Billy Bones. Participa em várias artimanhas para convencer Jim de que não está associado a Silver. Faltam-lhe dois dedos na mão esquerda, provável consequência de um anterior confronto com Billy Bones.
Pew – Pedinte cego com uma personalidade cruel, mortal e sinistra, também ele antigo membro da tripulação de Flint. Apesar da cegueira, revela-se perigoso e pode mesmo ser considerado um líder entre pares. É o segundo elemento que aborda Billy Bones e aquele que o informa acerca do local do tesouro. Acaba por ser esmagado pelos cavalos de agentes alfandegários, quando estes procuram socorrer Jim e a mãe. Silver alega que Pew gastou descontroladamente a parte que lhe coube do tesouro de Flint e que nos dois anos seguintes (até à morte) se dedicou a pedir, a roubar e a matar.
Sr. Dance – Chefe dos agentes alfandegários que surge com os subordinados na «Admiral Benbow» e afugenta os piratas, salvando assim Jim Hawkins e a mãe. É ele quem depois leva o jovem para um encontro com o médico e o proprietário rural.
Dogger – Um dos subordinados do Sr. Dance, que leva Jim no cavalo até à casa do proprietário rural.
Capitão J. Flint – Pirata que capitaneou um navio chamado «Walrus», mas que à data do enredo já está morto. Em vida, liderou os piratas e estes referem-no com frequência. Dono original do tesouro, enterrou-o na famosa ilha. O papagaio de Long John Silver tem o mesmo nome.
Abraham Gray – Marinheiro e carpinteiro no Hispaniola. É aliciado a participar no motim e pondera fazê-lo, mas acaba por resistir e manter a fidelidade ao Capitão Smollett, após falar com ele. Salva a vida de Jim ao matar Job Anderson durante um confronto e colabora no tiroteio contra os amotinados durante a caça ao tesouro armadilhada. Mais tarde, escapa da ilha juntamente com Jim Hawkins, o Dr. Livesey, Trelawney, o Capitão Smollett, Long John Silver e Ben Gunn. Investe a parte do tesouro que lhe pertence na própria educação, casa-se e torna-se dono parcial de um navio.
Israel Hands – Timoneiro do barco e antigo artilheiro de Flint. Também ele tenta matar Jim Hawkins, que o baleia fatalmente em legítima defesa.
Harry – Provavelmente, um antigo homem de Flint.
Sr. e Sra. Hawkins – Pais de Jim. O Sr. Hawkins falece no início do enredo.
John Hunter – Empregado de Trelawney. O Dr. Livesey considera-o um dos elementos mais fiáveis numa hipotética luta. Acompanha o patrão até à ilha mas é nocauteado num dos confrontos e acaba por morrer das lesões sofridas sem nunca recuperar a consciência.
John – Um amotinado que é ferido num dos primeiros ataques. Mais tarde, é quase sempre recordado por Jim, que se refere a ele como «o homem com a cabeça ligada». Acaba por ser morto na caçada final ao tesouro. É decerto um dos velhos homens de Flint, uma vez que é mencionado por Pew, a dada altura.
Dick Johnson – O mais novo dos amotinados, dono de uma Bíblia. Os outros piratas usam uma das páginas para enviar uma mensagem a Silver, fazendo com que este profetize um final azarado para Dick, castigando-o pelo sacrilégio. Logo depois, o visado adoece fatalmente com malária e acaba por ser abandonado na ilha no seguimento das mortes de George Merry e John.
Dirk – Mais um dos antigos homens de Flint e depois integrante do grupo de Pew.
Richard Joyce – Um dos empregados de Trelawney que acompanha o patrão até à ilha. De modos suaves e sem experiência militar, é baleado fatalmente na cabeça por um amotinado, durante um ataque.
George Merry – Um perigoso amotinado às ordens de Silver, que desobedece com frequência ao líder e chega mesmo a questionar a hierarquia. Com o apoio de Anderson e de Hands, provoca o início prematuro do motim e depois obriga Silver a atacar antes da descoberta do tesouro. Falha por pouco na tentativa de usurpar a liderança conseguindo, no entanto, que Jim seja feito prisioneiro. Por fim, é morto no momento em que se preparava para matar Long John e Hawkins.
Tom Morgan – Outro antigo membro da tripulação de Flint. Acaba por ser abandonado na ilha juntamente com Dick e outro elemento.
O’Brien – Amotinado que sobrevive aos primeiros confrontos e se coloca em fuga. Acaba por ser morto por Israel Hands, numa altercação a bordo do Hispaniola. Jim refere-se a ele ao longo do enredo como «o pirata de barrete vermelho», ficando depois a saber por Hands que se tratava, afinal, de um irlandês chamado O’Brien.
Tom Redruth – Outro empregado de Trelawney que acompanha o patrão e é morto num dos vários confrontos.
Tom – Um marinheiro honesto que é morto por Silver, quando se recusa a alinhar no motim.









